quinta-feira, 19 de agosto de 2010

DA ESCRITA


DA ESCRITA

Italo Calvino
"Às vezes penso na matéria para o livro a escrever como uma coisa que já existe: pensamentos já pensados, diálogos já pronunciados, histórias já acontecidas, lugares e ambientes já vistos; o livro não devia ser senão o equivalente do mundo não escrito traduzido em escrita.
Mas outras vezes julgo compreender que entre o livro a escrever e as coisas que já existem só pode haver uma espécie de complementaridade: o livro devia ser a parte escrita do mundo não escrito; a sua matéria devia ser o que não existe nem poderá existir senão quando for escrito, mas cujo vazio o que existe sente obscuramente na sua imperfeição.
Vejo que seja como for, continuo a girar em torno da ideia de uma interdependência entre o mundo não escrito e o livro que deveria escrever. É por isso que o escrever se me apresenta como uma operação de tal peso que fico esmagado.
Ponho o olho no óculo e aponto-o para a leitora. Entre os seus olhos e a página voa uma borboleta branca. Seja o que for que estivesse a ler, a verdade é que agora foi a borboleta a prender a sua atenção. O mundo escrito tem o seu apogeu naquela borboleta. O resultado para que devo tender é uma coisa precisa, íntima, leve.
Observando a jovem mulher na cadeira, deu-me uma necessidade de escrever a vista, ou seja escrever não ela mas a sua leitura, de escrever qualquer coisa, mas pensando que tem de passar através da leitura dela.
Agora, vendo a borboleta que pousa no livro. Queria escrever "a vista" tendo presente a borboleta. Escrever por exemplo um crime atroz, mas que de algum modo se pareça com a borboleta, que seja fino e leve como a borboleta. Poderia também descrever a borboleta mas tendo presente a cena atroz de um crime, para que a borboleta se torne uma coisa assustadora"

5 comentários:

Daniel Costa disse...

Renata

Textos como este que trazes aqui, merecem sempre a minha atenção. Chego
à conclusão que devemos sempre escrever. Um única coisa pode suscitar várias interpretações e todas interessantes.
Beijos

draupadi disse...

Todos os escritos que amamos ou viremos a amar, estão já (escritos) em nós. Falta encontrá-los, apenas.
Obrigado pelos seus comentários -- nem sei se vamos prosseguir o falharmelhor. Posso garantir que continuaremos falhando... tout court, ça oui.
Paz.
Joana

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Obrigada vc, Joana por vi aqui.
Venha sempre que puder.
Paz*
Renata

cristinasiqueira disse...

OI Renata,

Belíssima,voce!Sempre
Belíssimo este espaço onde secretamente presenteou-me com Ítalo Calvino e imagens preciosas.

Um SHOW!!!!!!!!!!!!!!!!!

Bacana demais,amada.

Beijos,

Cris

Espero sua visita em meu espaço
www.cristinasiqueira.blogspot.com
www.euamotrancoso.blogspot.com

MentesSueltas disse...

Hola, aqui estoy disfrutando tu espacio...
Volvere, sin dudas.

Te abrazo
MentesSueltas