terça-feira, 5 de outubro de 2010

TRISTÃO E ISOLDA AINDA E SEMPRE




TRISTÃO E ISOLDA AINDA E SEMPRE

Richard Wagner e "Tristão e Isolda"





A história de Tristão e Isolda tem origem em lendas celtas, e uma das mais tradicionais versões foi escrita no século XIII pelo alemão Gottfried von Strassburg. Em poucos anos, o tórrido romance entre e princesa da Irlanda e o nobre da Bretanha já era conhecido em toda a Europa. Até Dante Alighieri incluiu Tristão no segundo círculo do Inferno, lugar destinado aos condenados pela luxúria.
O destino colocou em confluência três elementos que levaram Richard Wagner a escrever o drama musical Tristão e Isolda. Em 1854, o compositor leu o livro O mundo como vontade e representação, de Arthur Schopenhauer. As teorias do filósofo impressionaram Wagner de tal maneira, que ele as transformou na base espiritual da sua própria filosofia artística. No mesmo ano, leu a lenda de Tristão e Isolda na versão de Gottfried von Strassburg, reeditada por Hermann Kurz. Wagner já conhecia o texto de Hans Sachs (o sapateiro de Os Mestres-Cantores de Nuremberg), intitulado Tragédia com 23 personagens sobre o imenso amor do senhor Tristão e a bela rainha Isolda. O compositor decidiu criar um drama musical sobre o argumento trágico e chegou a rascunhar um texto em prosa, para o terceiro ato, em que o errante Parsifal, ainda em busca do Santo Graal, faz uma visita ao agonizante Tristão.
Além das fontes narrativas e da filosofia de Schopenhauer, houve o desencadeamento de uma paixão fulminante entre Wagner e Mathilde Wesendonck. Influenciado por esses acontecimentos, o autor abandonou a composição do segundo ato de Siegfried para dedicar-se ao novo drama musical. Em 1854, antes de conhecer a obra de Schopenhauer e a lenda de Tristão e Isolda, ele havia dedicado a Mathilde o Prelúdio de A Valquíria e projetou a paixão proibida que sentia por ela no dueto de amor do primeiro ato desse drama musical. Numa carta para Liszt, dizia que o relacionamento entre Sigmund e Sieglinde estava condenado a uma tragédia.
Partindo, portanto, como já se disse da versão de Strassburg da lenda celta, Wagner abreviou o tempo da ação, eliminou personagens secundárias e tornou o enredo mais simples, além de inserir na história dos amantes elementos provenientes de outras fontes. A luz que é apagada no segundo ato talvez venha da história de Ero e Leandro de Shakespeare, e é um clichê romântico. A conclusão da cena de amor com o raiar do dia é outro clichê romântico, herdado de Romeu e Julieta. O delírio de Tristão, no terceiro ato, lhe foi sugerido por um poema do inglês Matttew Arnold. E já foram apontadas semelhanças entre Tristão, Isolda e Brangaine, no segundo ato, e Fausto, Helena e Lyncaeus, na primeira parte do poema de Goethe.
Já se falou da influência de Schopenhauer nessa obra wagneriana, mas não se disse como. Essa influência se manifesta pela relação amor/morte, pela idéia da Noite como uma forma de refúgio e libertação que se vincula com o outro mundo. Podem-se encontrar ecos dessas idéias pessimistas da temática noturna com muita freqüência em poetas como Novalis, Schlegel e J. - P. Richter, assim como na filosofia oriental.
Wagner assimilou as fontes que o inspiraram de forma muitíssimo pessoal. É à sua obra, muito mais que à lenda escrita, que se deve o fato de Tristão e Isolda integrarem a galeria dos grandes apaixonados, como Pedro e Inês, Romeu e Julieta, Paolo e Francesca, Paulo e Virgínia ou Des Grieux e Manon, entre outros. Além disso, o argumento de Tristão e Isolda – um jovem apaixonado por uma mulher, que também o ama, mas que é casada com um homem mais velho, ao qual ele está ligado por um laço de fidelidade ou parentesco – vai servir de pano de fundo para várias óperas posteriores, tais como Pelléas e Mélisande, de Debussy, Le Roi Arthus, de Chausson, Parisina, de Mascagni, entre outras.





Tristão e Isolda é uma das raras óperas em que quase não há ação externa. Há tão-só o confronto dos sentimentos das personagens, o seu conflito íntimo, um longo e difícil debate emocional. Enquanto o drama Romeu e Julieta, de Shakespeare, trata dos aspectos poéticos do amor trágico de adolescentes, Wagner explorou o consciente e o inconsciente do amor adulto. Concentra-se na iluminação da alma dos amantes, bem como nos aspectos eróticos do amor.


Os três temas fundamentais – a descoberta do amor, a idéia da noite como refúgio, bem como a negação das atribulações do dia, e a morte como libertação – dominam nos três atos, estando, ao mesmo tempo, entrelaçados ao longo de todo o texto. O filtro mágico que, na lenda, faz nascer a paixão, em Wagner é apenas o símbolo do momento em que ambas as personagens se dão contam de que já se amavam antes e decidem assumir o seu amor. O núcleo da obra é a enorme cena de amor do segundo ato, com a invocação: “Desce sobre nós, noite de amor”. E a descrição de um amor que se confunde com a morte: “Assim morreremos, eternamente juntos, sem fim, sem despertar". Cena que atinge o ponto culminante no alerta de Brangânia. Fora da cena, ela adverte o casal de que a noite está terminando e que sem o seu manto protetor aumenta o perigo de eles sejam descobertos. Mas Tristão e Isolda estão num tremendo êxtase amoroso que se deixam surpreender pelo rei Marcos, marido de Isolda.
Esse episódio, no entanto, e os seguintes – a ferida que Melot faz em Tristão, o delírio deste no seu castelo em Kareol e a sua morte e a de Isolda, que expira sobre o seu corpo num extremo êxtase erótico – são a conseqüência inevitável da própria lógica interna da história, baseada na idéia pessimista de que é impossível a plenitude amorosa num mundo de contingências onde só há imperfeições. Só no absoluto da morte esse sentido pode realizar-se na sua total pureza.
A simplificação da trama (duas personagens apenas, dominadas por um sentimento único) permite grande unidade musical. Em termos de inspiração musical, Wagner atingiu alturas talvez igualadas em outros trabalhos, mas nunca ultrapassadas.
Wagner casou-se aos 23 anos com Minna Planer, uma jovem atriz e cantora. Após um ano, ela abandonou Wagner por outro homem. Devido ao fracasso da efêmera relação, ela retornou e foi acolhida pelo marido.
O casal sempre teve uma forte e mútua atração física – Minna representava para Wagner a Vênus de Tannhäuser. Ela, porém, jamais acreditou nos projetos grandiosos do compositor, e passava a maior parte do tempo atormentando o marido com críticas e repreensões por ele ser um sonhador e visionário. Além de a sua vida matrimonial ser permeada de crises, Wagner teve que fugir de Riga, para escapar dos credores. O seu sonho de triunfar em Paris transformou-se em pesadelo, ao ver sua música recusada pelos empresários e diretores de teatros. O casal enfrentou terríveis dificuldades financeiras e Wagner escapou de ser preso por dívidas, graças ao auxílio de alguns amigos.
Aconteceu um interlúdio de paz no retorno à Alemanha com o sucesso das estréias de Rienzi e de O Holandês voador. Wagner assumiu o posto de dirigente musical na corte de Dresde, garantindo para Minna o sonho da segurança e da estabilidade financeira. Mas Wagner, além da música, era apaixonado pela filosofia e pela política. Abraçou as teses de Pierre Proudhon e Ludwig Feuerbach. Participou ativamente do levante de Dresde, e assim que a revolução foi esmagada, fugiu para a Suíça. Proibido de retornar ao seu país, enfrentou um exílio de onze anos. Minna deveria ser uma grande mulher para suportar todos esses revezes sem apelar para as recriminações e a crítica.
Mas ela se transformou na atormentadora Fricka de Wotan do Anel dos Nibelungos e na desconfiada e indecisa Elsa de Lohengrin. Richard e Minna eram incompatíveis do ponto de vista espiritual e intelectual. Ele desejava uma mulher que compartilhasse os seus ideais e o encorajasse na busca de grandes conquistas. Queria algo mais que o amor físico. Queria uma mulher como Senta foi para o Holandês e Elizabeth para Tannhäuser. Wagner suspirava pela Ewig-Weibliche – o eternamente feminino – descrito por Goethe. Sem dúvida alguma, a música e o drama de O Holandês voador e do Tannhäuser pavimentaram o caminho para Wagner chegar ao Tristão.
Em 1857, começou a trabalhar na sua nova obra. Devido aos problemas conjugais, foi forçado a deixar a sua residência em Zurique e se mudou para Veneza, quando começou a compor o segundo ato do drama musical. A situação política entre austríacos e italianos o obrigou a abandonar Veneza e viajar para Lucerna, na Suíça. Hospedado no Hotel Schweizerhof, passou seis solitários meses trabalhando no terceiro e último ato de Tristão e Isolda, concluído no dia seis de agosto de 1859.
Ao iniciar a composição dessa obra, Wagner também se preocupou com aspectos práticos e financeiros.
Em contraponto ao gigantismo e à complexidade do ciclo do Anel dos Nibelungos, ele pensava em compor um trabalho simples, com poucas personagens e sem a exigência de uma montagem sofisticada e grandiosa. O drama musical poderia ser encenado em qualquer teatro e garantiria um retorno financeiro imediato para o compositor. O desenrolar dos fatos nos provou o contrário, pois Tristão e Isolda só estreou oficialmente seis anos depois, em 10 de junho de 1865, no Munich Hoftheater.

@ Renata Cordeiro



***


Eles eram como a madressilva que se prende na aveleira. Quando se enlaça em torno do topo da aveleira, podem durar; mas se alguém vêm separá-las, a aveleira morre na hora, bem como a madressilva. “Somos assim: nem eu sem vós, nem vós sem mim.” (...) De alegria por rever a sua amiga, e guardar a memória das palavras que ela lhe havia dito, Tristão, que sabia tocar harpa muito bem, fez uma nova canção. Só me resta dizer-lhes o seu nome: “A Madressilva”.

Maria da França



@ translated by Renata Cordeiro



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4 comentários:

Daniel Costa disse...

Renata

Tristão e isolda a que tanto te referes, é uma tragédia musicada, das que marcam um compositor. Creio que em tempos mais recuados, os compositores de dedicavam bastante a escrever grandes obras, a partir dos grandes dramas amorosos.
Aprecio, ler estas traduções tuas, de grandes dramas, tens muita propenção para essa grandes obras de amores proibidos.
Ternos beijos

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Oiê, querido! Como sempre, impulsionas esta nossa casa.
O amor entre Tristão e Isolda foi proibido, mas bem consumado.
Muita coisa aí, é da minha pesquisa sobre o tema, para a publicação do libreto, que, confesso, já me cansa:)))
Obrigada, Daniel!
Beijos e.ternos.
Renata

Vivian disse...

...em vão é tentar proibir
a força do amor.

adoro tua alma, querida linda!

bjbjbj

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Oiê, Vivi!
Muito obrigada por gostar daqui e da minha alma.
Ontem, já era tarde, hoje ainda é cedo e acordei como não podia, gripada.
Nunca viu lhe poder agradecer pela força.
Beijos