sexta-feira, 30 de julho de 2010

DO AMOR***************







DO AMOR*********

Até mais! 


Quanto mais envelhecia quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava quanto mais claramente compreendia aonde deveria procurar a fonte das alegrias da vida aprendi que ser amado não é nada e amar é tudo

O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder e mesmo assim infeliz

A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos infelizes apesar da sua beleza

Tampouco a saúde contava tanto assim. Cada qual tem a saúde que sente

Havia doentes repletos de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer

A felicidade é amor só isso

Feliz é quem sabe amar

Feliz é quem pode amar muito

Mas amar e desejar não é a mesma coisa

O amor é o desejo que atingiu a sabedoria

O amor não quer possuir

O amor quer somente amar


Hermann Hesse******


domingo, 25 de julho de 2010

O CORVO* IN OTHER WORDS******************





O CORVO* IN OTHER WORDS********


GOOD WEEK*********




Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,

a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,

e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,

tal qual houvesse alguém batido à minha porta, devagar.

“É alguém”, fiquei a murmurar, “que bate à porta, devagar;

sim, é só isso e nada mais”.



Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro

e o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.

Ansiava ver a noite finda, em vão a ler, buscava ainda

algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora

- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora

e nome aqui já não tem mais.



A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,

arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.

De susto, de pávida arritmia, o coração veloz batia

e a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.

Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.

É apenas isso e nada mais”.



Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:

“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;

mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,

que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,

assim de leve, em hora morta”. Escancarei então a porta:

escuridão, e nada mais.



Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la,

sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.

Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,

só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”

E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”

Depois, silêncio e nada mais.



Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,

mais forte o ruído recomeça e repercute nos vitrais.

“É na janela”, penso então. “Por que agitar-me de aflição?

Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,

o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.

É o vento só e nada mais”.



Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:

- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.

Como um fidalgo passa, augusto, e, sem notar sequer meu susto,

Adeja e pousa sobre o busto – uma escultura de Minerva,

bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,

empoleirado e nada mais.



Ao ver da ave austera a soleníssima figura,

Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.

“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” – então lhe digo –

“não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo,

qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”

E o Corvo disse: “Nunca mais”.



Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,

misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;

pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,

que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,

uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta

e que se chama: “Nunca mais!”.



Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,

com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.

Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,

enquanto a mágoa me envenena: “Amigos... sempre vão-se embora.

Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora”.

E disse o Corvo: “Nunca mais”.



Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,

julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.

Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura

e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo

de seu cantor; do morto anelo, um epitáfio: o ritornelo

de ‘Nunca, nunca, nunca mais’ ”.



Como ainda ó Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,

girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais,

e, mergulhando no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,

visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,

com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo

grasnava sempre: “Nunca mais”.



Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,

eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.

Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada

dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,

dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,

já não repousa, ah! nunca mais...



O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso

ali descesse a esparzir turibulários celestiais.

“Mísero!”, exclamo. “Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus

esquecimentos, lá dos céus, para as saudades de Lenora.

Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!

E o Corvo disse: “Nunca mais”.



“Profeta!”, brado. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal

que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,

de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita

mansão de horror, que o horror habita – imploro, dize-mo, em verdade:

EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! dize-mo, em verdade!”

E o Corvo disse: “Nunca mais”.



“Profeta!”, exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!

Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,

Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,

Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora.

- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”

E o Corvo disse: “Nunca mais”.



“Seja isso a nossa despedida!”, ergo-me e grito, alma incendiada.

“Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!

Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!

Deixa-me só nesse ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!

Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”

E o Corvo disse: “Nunca mais!”



E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,

sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.

No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,

e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.

Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,

não há de erguer-se, ai! nunca mais!





e. a . poe

Trad. por Oscar Mendes e Milton Amado




domingo, 18 de julho de 2010

A CONSTRUÇÃO DO TEMPO* ENSINAMENTOS DE "O PEQUENO PRÍNCIPE"



A CONSTRUÇÃO DO TEMPO* ENSINAMENTOS DE "O PEQUENO PRÍNCIPE"




"O futuro não é um lugar para onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quando o destino."

Antoine de Saint-Exupéry









quinta-feira, 15 de julho de 2010

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE********************





CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE


A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...