sábado, 8 de março de 2014

A BELA DAMA SEM PIEDADE





A BELA DAMA SEM PIEDADE


O que pode  estar te perturbando?
Tão só, pálido, 
Que tudo ao redor quase não passa?
As sebes estão secas às margens do lago
E nenhum pássaro canta!
O que pode estar te perturbando?
Teu rosto revela sofrimento e dor
A toca do esquilo está farta,
A colheita está feita,
Percebo uma flor em tua fronte
Úmida de orvalho febril, aflito, 
Na testa a rosa já sem brilho sem frescor
Rápida, também murcha!

Encontrei a dama nos campos
Tão linda...a jovem fada.
Tinha longos cabelos, passos leves
Olhos selvagens,
Teci-lhe guirlanda e a coroei
Fiz-lhe braceletes, 
Rodeei-a de perfumes. 
Olhou-me como se de mim gostasse
E suspirou docemente!

Eu a pus no meu cavalo e a segui.
E nada mais vi durante todo o dia!
Pelos caminhos ela me abraçou e cantava
A canção de fadas!

Trouxe-me raízes de suave alívio,
Mel silvestre orvalho da manhã,
E numa estranha linguagem disse
Eu te amo verdadeiramente!

Levou-me à sua caverna de fada,
Chorou e soluçou dolorosamente.
Fechei-lhe os selvagens olhos,
Com quatro beijos,
Embalou-me com doçura o sono.
Então sonhei,
Ah! doce desassossego!

O último sonho
 Na fria borda da colina
Vi pálidos reis príncipes guerreiros
De mortal palidez todos.
 Gritaram-me:

"A Bela Dama sem Piedade
Também o escravizou!"

Vi os seus lábios famintos sombrios
Abertos em horríveis avisos.
Quando despertei estava 
Na fria borda da colina.
Por isso que permaneço aqui
Tão só, pálido! 
Que tudo ao redor não passa.
Junto às sebes secas às margens do lago,
Onde nenhum pássaro canta.


John Keats (1795-1821)

Tradução de Renata Cordeiro