terça-feira, 18 de março de 2014

PRIMEIRA CARTA PORTUGUESA

PRIMEIRA CARTA PORTUGUESA

Considera, amor meu, a que ponto chegou a tua intemperança. Infeliz! Foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto gozo já não é mais que desespero mortal, comparável apenas à crueldade da ausência que a provoca. Irá, então, essa distância, para a qual o meu pesar, por mais sutil que seja, não encontrou nome lamentável o suficiente, privar-me para todo o sempre de me debruçar nesses olhos em que já vislumbrei tanto amor, que despertavam em mim emoções que me invadiam de alegria, que bastavam para o meu contentamento, e, enfim, valiam tudo quanto há?Os meus olhos estão privados do único lume que os iluminava, não lhe restam senão lágrimas, e só os uso para chorar, desde que fiquei sabendo que te havias decidido por um afastamento tão insuportável que em pouco tempo me matará. No entanto, parece-me que até ao sofrimento, cuja única causa és tu, já me afeiçôo. Assim que te vi, a minha vida foi tua, e chego até a ter prazer em sacrificá-la a ti. Mil vezes por dia, os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por todos os lugares, e, em troca de tanta inquietude, só me dão mostras da minha sorte infeliz, que cruelmente não me concede engano algum e me diz a todo instante: *Pára, pobre Mariana, pára de te mortificares em vão, e de procurares um amante que não verás de novo, que atravessou mares para fugir de ti, que está na França circundado dos prazeres, que não pensa um só instante nas tuas dores, que te causa todo esse arrebatamento e nem sequer sabe agradecê-lo a ti* Não posso pensar que me esqueceste. Já não sou suficientemente infeliz sem o tormento de falsas suspeitas? E por que procurarei esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Fiquei tão encantada com os teus cuidados, que seria muito ingrata se não te desejasse com desvario igual ao que me levava à minha paixão, quando me dava mostras da tua. Como pode a recordação de momentos tão lindos se ter tornado tão cruel? E como pode isso, contra a própria natureza, agora só servir para me torturar o coração? A tua última carta reduziu este coração a um estado bastante ímpar: bateu de tal modo que parecia querer fugir de mim para ir procurar-te. Fiquei tão estarrecida de comoção que por três horas os meus sentidos ficaram suspensos: recusava uma vida que tenho de perder por ti, visto que para ti não posso mantê-la. Acabei voltando, contra a minha própria vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além disso, era um alívio não enfrentar de novo o meu coração partido pela dor da tua ausência. Após esse incidente, tenho sofrido muito, mas como poderei não sofrer se não te vejo? Porém, suporto o meu pesar sem queixas, porque me vem de ti. Então é isso que me dás em troca de tanto amor? Mas, pouco importa, resolvi-me a adorar-te por toda a vida e a não ver ninguém, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais pessoa alguma. Tu te poderias contentar com uma paixão menos ardente do que a minha? Talvez até encontrasses mais beleza (houve um tempo, contudo, em que me dizias que eu era muito bonita), porém não encontrarias nunca tanto amor, e o resto não é nada. Não cumules as tuas cartas de coisas inúteis, nem me peças de novo que me lembre de ti. Não posso esquecer-te, e tampouco me esqueço da esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Por que não desejas passar a vida toda ao meu lado? Se eu pudesse sair deste infausto convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria pessoalmente, sem me importar com conveniências, à tua procura, e seguir-te, amar-te por toda parte. Não ouso crer que isso possa acontecer; tal esperança, com certeza, me daria algum consolo, porém não quero alimentá-la, porque só devo entregar-me à minha dor. Mas quando o meu irmão me permitiu escrever-te, confesso que senti um tumulto de alegria dentro de mim, que me fez esquecer, por alguns instantes, o desespero em que vivo. Rogo-te que me digas por que teimaste em me deixar louca assim, sabendo, como o sabias, que acabarias por me deixar? Por que te esforçaste tanto por me desgraçar? Por que não me deixaste em paz no meu convento? Porém, perdoa-me; não te culpo de nada. Não estou em condições de pensar em vingança, e acuso só o rigor da minha sina. Quando nos separaste, acho que nos fez o pior dos pesares, mas não consigo afastar o meu coração do teu; o amor, muito mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me de quando em quando. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e, principalmente, vem ver-me. Adeus. Não consigo separar-me deste papel que chegará às tuas mãos. Quem me dera ter a mesma sorte! Que loucura a minha! Sei muito bem que isso é impossível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.

Tradução do original francês por Renata Cordeiro