sábado, 15 de março de 2014

SONETOS FILOSÓFICOS-MORAIS - 145



J. W. Watherhouse, Mariana in the south 
 
SONETOS FILOSÓFICOS-MORAIS

145

Procura desmentir os elogios inscritos num retrato da Poetisa pela verdade, a que se chama paixão.

Este, que vês, engano colorido,
que vai da arte ostentando os seus primores,
com falsos silogismos multicores
é cauteloso engano do sentido;

este, em quem a lisonja tem querido
escusar destes anos os horrores,
e vencendo do tempo os seus rigores
derrotar a velhice e o eterno olvido,

é um vão artifício do cuidado,
é uma flor ao vento delicada,
é um resguardo inútil para o fado:

é uma diligência néscia e errada,
é um afã caduco e, bem mirado,
é cadáver, é pó, é sombra, é nada.

SOR JUANA INÉS DE LA CRUZ (1651-1695)

Tradução de Renata Cordeiro