quinta-feira, 17 de abril de 2014

AS FLORES DO MAL, XXXVIII. UM FANTASMA II O PERFUME



AS FLORES DO MAL, XXXVIII. UM FANTASMA

II

O PERFUME

Recordas-te de teres respirado,
Ébrio e com gula que se volatiza,
O incenso que uma missa aromatiza
Ou de um sachê o almíscar inveterado?

Mágico encanto, fundo, que improvisa
No presente, o valor do já passado!
Qual o amante no corpo idolatrado
Apanha a fina flor que memoriza.

Do seu cabelo elástico e pesado,
Incensório de alcova, que cheirava
A sachê, vinha o odor feroz e irado,

Do traje: musselina, aveludado,
Onde a tua flor moça se impregnava,
Vinha o cheiro do pano que o forrava.

Charles Baudelaire (1821-1867)

Tradução de Renata Cordeiro