quarta-feira, 2 de abril de 2014

ATÉ A FIM DO MUNDO



ATÉ A FIM DO MUNDO[1]


A HISTÓRIA DE PEDRO E INÊS

Em 1320, em Coimbra, nasceu o príncipe D. Pedro, filho de D. Afonso IV, rei de Portugal. Em 1340, após a vitória decisiva da cristandade sobre a mourisca Península Ibérica, de que participou D. Afonso IV ao lado de Afonso XI de Castela, Inês de Castro, a loira e belíssima aragonesa, foi a Portugal como dama de honra de D. Constança, noiva castelhana de D. Pedro. Ocorreu, porém, entre D. Pedro e Inês uma paixão fulminante e, por isso, Inês foi exilada no Mosteiro de Santa Clara. Por volta de 1349, morreu D. Constança. Pedro foi buscar Inês, levou-a para Coimbra, onde a desposou em sigilo. O fruto dessa união foram quatro filhos, mas um morreu. Chamavam-se D. Pedro, D. Beatriz e D. Dinis. Influenciado pelos Castros (irmãos de Inês), que foram à Corte de Castela, onde reinava Pedro I, primo de D. Pedro de Portugal, este decidiu intervir nas lutas dinásticas castelhanas, pois lá se preparava uma revolução contra D. Pedro I. Se D. Pedro de Portugal ajudasse o primo a ganhar a guerra, ficaria com a Corte de Castela. O Conselho do rei Afonso IV (pai de D. Pedro), porém, temia que Castela ganhasse e que Portugal perdesse a coroa. Decidiram, portanto, que o melhor seria matar D. Inês. Então, na escada do Palácio de Santa Clara, em Coimbra, ela foi “apunhalada” (na verdade, foi decapitada, como cabia aos nobres, embora os poetas dissessem o contrário, pois é mais dramático e romântico), deixando D. Pedro furioso e sedento de vingança. D. Pedro pegou em armas contra o pai. Com a sua tropa, tentou até mesmo ocupar a cidade do Porto. O bispo de Braga resolveu apaziguar a desavença e D. Pedro se acalmou, pois a guerra civil envolveria o massacre de inocentes. Então, o rei exigiu que D. Pedro não perseguisse os matadores de Inês de Castro e o príncipe lhe garantiu que já lhes havia perdoado. O rei fingiu aceitar a palavra dada, mas não deixou de desconfiar dela. De qualquer modo, começou a partilhar com o filho o mando e o comando do reino. Mas, quando em 1357, D. Afonso IV caiu no leito de morte, ainda teve forças para aconselhar os assassinos a se exilarem em Castela. Pelo sim, pelo não, os três fugiram e cruzaram a fronteira. Morreu D. Afonso IV e D. Pedro subiu ao trono. A sua primeira medida foi combinar com D. Pedro de Castela a troca de assassinos castelhanos em Portugal por assassinos portugueses em Castela. Foi assim que foram entregues à justiça portuguesa os algozes de Inês: Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Diogo Lopes Pacheco conseguiu fugir a tempo de Castela para Aragão e dali para a França. Enquanto trinchava e comia a carne mal passada e bebia o vinho tinto, D. Pedro I ia assistindo à demorada tortura de Pero Coelho e de Álvaro Gonçalves. A um, arrancam-lhe o coração pelas costas, a outro pelo peito.
Os nobres murmuram, apavorados:
– O rei trai a palavra dada...
Mas um homem-bom
[2] diz:
– Quem trai a quem fez traição, tem cem anos de perdão.

D. Pedro I decidiu preservar a memória de Inês de Castro. Mandou esculpir dois túmulos, um para ela, outro para ele. Foram postos, a princípio lado a lado, mas logo a seguir frente a frente para que no dia do Juízo final, eles se pudessem reencontrar e olhar nos olhos. Os baixos relevos do túmulo de D. Inês representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Sobre a tampa está esculpida a imagem de Inês, de corpo inteiro, coroada como rainha. As esculturas do túmulo de D. Pedro representam cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a Portugal. Ambos os túmulos foram postos dentro da igreja, perto da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Em 1361, D. Pedro mandou trasladar os restos mortais da amada, do Mosteiro de Santa Clara para o de Alcobaça. Os restos mortais seguiram numa liteira de luxo, conduzida por grandes cavaleiros, acompanhada por muita gente, nobres, clérigos, burgueses e plebeus. Pelo caminho até Alcobaça, muitos homens com círios nas mãos. No Mosteiro, muitas missas e solenidades para depositar os restos de Inês no túmulo novo. Em seguida, D. Pedro forçou os nobres a prestar vassalagem a D. Inês, obrigando-os a beijar a mão do cadáver. Depois da morte de Inês, D. Pedro não voltou a casar-se ou a amancebar-se. Sabemos apenas que uma certa Teresa Lourenço teve ainda um bastardo a quem pôs o nome de João. Naqueles tempos, todo homem que se prezasse, em casa tinha filhos legítimos e fora de casa, bastardos. O curioso é que esse bastardo João viria a ser o futuro Mestre de Avis, fundador da segunda dinastia portuguesa. D. Pedro morreu em Extremoz, e o seu corpo foi depositado no túmulo do Mosteiro de Alcobaça, frente ao túmulo de Inês. Governou o reino durante dez anos. E dizia o povo, choroso, que aquele rei nunca havia de morrer e que “tais dez anos nunca houvera em Portugal” como aqueles em que reinou D. Pedro.

por 
Renata Cordeiro

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TRISTÃO E ISOLDA

PARALELOS ENTRE A HISTÓRIA DE TRISTÃO E ISOLDA E A DE PEDRO E INÊS

Embora as narrativas da história de Tristão e Isolda comecem a ser escritas no século XII na França e se é verdade que tal história existiu, isso só deve ter acontecido por volta do século VII, é possível, guardadas as devidas proporções, traçar alguns paralelos entre a história de Inês e Pedro, que realmente existiu no século XIV, e a de Isolda e Tristão. Assim como o amor de Tristão e Isolda é proibido, pois Isolda é casada com o tio dele, o rei Marcos, o amor de Pedro e Inês também o é, porque ele é casado com D. Constança, de quem Inês é dama de honra. Esse é mais um ponto em comum, só que às avessas: enquanto Tristão é vassalo do rei, Inês é aia da princesa. No que diz respeito ao aspecto de Isolda e Inês, as duas são belíssimas e loiras. Os amores de ambos os casais são fulminantes, escancarados e impossíveis de controlar, embora Tristão e Isolda não se casem oficialmente, porque Marcos não morre, porém ela já se havia casado antes com Tristão, pois foi com ele que perdeu a virgindade. Além disso, ambos vivem como marido e mulher quando estão no exílio na floresta. Conta-se também que enquanto Inês estava no Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, os amantes enviavam bilhetes por um túnel feito por uma casca de árvore que ia dar na fonte dos amores no Palácio de Santa Clara. O mesmo ocorre em algumas versões de Tristão e Isolda, em que os amantes marcavam encontros, fazendo uso do mesmo expediente, depois que Tristão foi expulso do castelo. Enfim, a morte não separa nenhum dos casais. Isolda morre ao ver Tristão morto. Marcos vai à Bretanha e manda enterrar os corpos lado a lado em túmulos separados. Mas do túmulo de Tristão, dependendo da versão, ora nasce um espinheiro que mergulha no túmulo de Isolda, ora uma cepa de vinha e uma roseira entrelaçadas para sempre, ora dois salgueiros, igualmente entrelaçados para sempre, ora dois arbustos, ora outras plantas, sempre ligadas ad aeternum. Já Pedro manda construir dois túmulos, um diante do outro para que na hora do Juízo Final os amantes se possam reencontrar e olhar nos olhos, além de obrigar os nobres a fazerem o beija-mão da rainha depois de morta. A morte, em vez de separar Tristão e Isolda e Pedro e Inês, pelo contrário os une, até a fim do mundo.

por
 Renata Cordeiro