quinta-feira, 15 de maio de 2014

É PARA TI A FLOR QUE APANHEI...




É PARA TI A FLOR QUE APANHEI...


É para ti a flor que apanhei na colina.

No penhasco que sobre o oceano se inclina,

E que só pode ser por águias acercado,

Em paz, crescia em meio às fendas do rocado.

A sombra ia banhando o triste promontório;

Eu via erguer em tão glorioso território,

Qual arco triunfal, vermelho e cintilante,

Onde fora engolido o sol, astro reinante,

O nuvioso portal da noite escurecida.

Naus fugiam ao longe assim diminuídas;

E tetos, reluzindo ao fundo de um desvão,

Pareciam temer que os vissem ao clarão.

É para ti a flor que apanhei bem-amada.

É pálida e não tem corola perfumada.

Sua raiz tomou nos montanhosos cimos

Somente o amargo odor daqueles glaucos limos;

Eu disse: "Pobre flor, do píncaro alteroso

`Tu devias cair no abismo cavernoso

`Para onde a alga, as naus e as nuvens sempre vão.

`Morre no abismo mais profundo, o coração.

`Fana no peito em que há um mundo a palpitar.

`Determinou-te o céu na onda desfolhar,

`Fez-te para o oceano, e te oferto ao amor."

O vento misturava as ondas, e um fulgor

Confuso e levemente apagado era o dia.

Oh! Com a flor, pensando, o quão me entristecia

Com meus sonhos, com a alma imersa na negrura

Da voragem, mesclada às vesperais tremuras!

Victor Hugo (1802-1885)

Tradução de Renata Cordeiro