sexta-feira, 23 de maio de 2014

O AMOR DE PAULO E VIRGÍNIA






 O AMOR DE PAULO E VIRGÍNIA

Entretanto, uma vez que era chegada a hora do jantar, pusemo-nos à mesa, onde cada um dos convivas, agitado por diferentes paixões, comeu pouco, e não falou. Virgínia foi a primeira a sair, indo sentar-se no lugar onde estamos. Paulo a seguiu de imediato, e veio para perto dela. Ambos mantiveram por algum tempo um profundo silêncio. Era uma dessas noites deliciosas, tão comuns nos trópicos, e cuja beleza o mais hábil pincel não reproduziria. A lua surgia no meio do firmamento, circundada de uma cortina de nuvens, que os seus raios dissipavam aos poucos. A sua luz se espalhava imperceptivelmente pelas montanhas da ilha e pelos seus cumes, que brilhavam com um verde argênteo. Os ventos prendiam a respiração. Ouviam-se, na mata, no fundo dos vales, na extremidade das rochas, gritinhos, doces murmúrios de pássaros que se acariciavam nos seus ninhos, regozijados pela claridade da noite e pela tranqüilidade do ar. Todos, inclusive os insetos, sussurravam sob a erva. As estrelas cintilavam no céu e se refletiam bem no meio do mar, que repetia as suas imagens trementes. Virgínia percorria com olhar distraído o seu vasto e escuro horizonte, distinguido da orla da ilha pelos faróis vermelhos dos pescadores. Vislumbrou, na entrada do porto, uma luz e uma sombra: era o fanal e o corpo do navio em que ela teria de embarcar para a Europa, e que, pronto para içar velas, esperava ancorado o fim da calmaria. Quando viu isso, ficou perturbada, e virou o rosto para que Paulo não a visse chorar.



BERNARDIN DE SAINT-PIERRE (1737-1814)


Trad. da Renata Cordeiro