domingo, 18 de maio de 2014

PRIMEIRO FRAGMENTO ACERCA DO AMOR (EXCERTO)







PRIMEIRO FRAGMENTO ACERCA DO AMOR (EXCERTO)
MARÍA ZAMBRANO (1904-1991)





Uma das indigências dos nossos dias é o Amor. Não porque o Amor não exista, mas porque a sua existência não encontra espaço onde habitar, nem tampouco acolhida na própria alma que Ele visita. No ilimitado espaço que, na aparência, a mente contemporânea abre a toda e qualquer realidade, o Amor se depara com infinitas barreiras. E precisa justiçar-se, dar inúmeras razões, e resignar-se a ser confundido com os múltiplos sentimentos, ou instintos, se não quer esse lugar obscuro da “libido”, ou ser tratado como doença secreta, de que todos deveriam libertar-se. A liberdade, ou melhor, todas as liberdades não lhe parecem ter servido de nada, pois, à medida que o ser humano foi acreditando que o seu “ser” era pura e simplesmente a consciência, o Amor foi ficando premido, sem espaço vital onde respirar, como o pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa.
Trad. da Renata Cordeiro