segunda-feira, 5 de maio de 2014

UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA


UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA
Esse obscuro objeto do desejo.
Bélgica, França, Suíça, 1999
Direção: Frédéric Fonteyne
Roteiro: Philippe Blasband
Com: Nathalie Baye, Sergi López, Jacques Viala, Paul Pavel, Sylvie Van den Elsen, Pierre Gerrainio, Hervé Sogne
Título Original: Une liason pornographique
Drama, romance
CURTA
Nesse filme, um homem e uma mulher descobrem que não é tão simples como eles pensaram ter uma relação estritamente sexual. Ambos com seus 40 e poucos anos se conhecem através de um anúncio de jornal, em que ela diz que está à procura de um homem que realize uma fantasia sexual sua. Concordam em se encontrar uma vez por semana para uma relação sexual. Os encontros têm que ser excitantes, porém impessoais. Os dois combinam que nenhum saberá o nome do outro ou fará perguntas que não tenham a ver com os seus encontros. Nada do que acontece entre eles nos é dito ou mostrado. No entanto, aos poucos, um sentimento brota e cresce dentro deles, e depois de muitas semanas, ele a convida para jantar antes de irem ao hotel. Após alguns meses, ela sugere que eles deveriam tentar fazer amor de forma “tradicional” pela primeira vez. Esses acontecimentos os aproximam e a natureza do relacionamento muda. Essa mudança é simbolizada mais claramente quando um homem tem um colapso no hall do hotel e os dois, juntos, o levam para o hospital. O filme nos desconcerta pelo seu tratamento que vai de encontro à sexualidade atual. Não é mais o amor incipiente que é posto em questão pela sexualidade, mas é a sexualidade que é questionada pelo amor, sendo, este último, por sua vez, posto em questão ultimamente pelo individualismo urbano e pelo medo do compromisso. Frédéric Fonteyne nos apresenta, em forma de documentário, entrevistas com as duas personagens fictícias que relembram a paixão que nasceu graças aos pequenos anúncios, um amor com o qual eles jamais conseguiram lidar, nem confessar realmente. Em seguida, o cineasta se lança numa série de travellings sobre a porta externa do quarto de hotel, porta essa que o espectador nunca poderá abrir. Relegando a narração aos protagonistas entrevistados, o imaginário só reconstitui, ao ritmo do discurso dos atores, o desenrolar da paixão a um só tempo banal e tão insólita. E como os protagonistas se recusam a revelar a sua fantasia, o diretor vai brilhantemente impor a participação do espectador voyeur, limitando seu espaço ao espaço da fantasia, que não é de modo algum um avatar de um materialismo machista, mas que se torna a experiência pessoal e íntima de um casal que aprende a se amar. Daí a importância do título que, se anuncia e condiciona desde o começo o voyerismo do espectador e a sua participação no filme, só vai mais fortemente esfregar o olho perverso na porta fechada, impondo a reflexão e o questionamento do espectador. Do exterior vermelho (a cor da fantasia, que permanece secreta), o espectador só pode entrar uma vez no espaço fechado com contraste azul, onde ele nunca saberá a fantasia secreta que deseja descobrir. Ao contrário, ele só será o observador de uma cena de amor banal e íntima. Pois aqui, da fantasia sexual desinteressada e materialista, passamos para o amor incipiente. Eles não “trepam” mais: fazem amor A seguir, o realizador manda o espectador de volta para o exterior vermelho e inconsciente, tomado atrás desse plano da porta, interminável, em que a fantasia permanece secreta, em que a sexualidade volta a ser ato de paixão e união. Um lugar fechado, secreto e íntimo, onde o homem e a mulher conseguem unir as suas paixões e os seus instintos que não são mais reprimidos, mas expressos no segredo, que não são mais simples animalidades individualistas e “pornográficas”, mas uma experiência sensorial e sensual, secreta e maravilhosa. O quatro onde, pela última vez, eles poderão construir a Beleza, para além da amoralidade puritana. Uma última experiência da fantasia que exprime o amor que não ousa dizer seu nome, um amor que é vivido apaixonadamente, mas que permanece indizível, enquanto o homem e a mulher se isolam e se entregam, porém com muito medo de dizer “Eu te amo”, uma vez confrontados com “o medo do compromisso”, que é tônica do isolamento urbano atual. Pela sua direção sóbria, mas calculada, Frédéric Fonteyne se deleita em questionar as contradições e a despolarização dos tabus. Ele nos oferece um curto retrato de um objeto sexual machista sem nenhum significado e sem nenhuma sensualidade. Um mundo em que o sexo não é tabu, mas em que o amor, sim, se torna tabu. Porém, sem jamais moralizar o sexo ou o amor, o cineasta consegue reunir os dois pólos numa harmonia que nunca se deu antes (pois o mundo moderno recusa o amor e o mundo judaico-cristão recusa a sexualidade), destruindo a reificação da fantasia para pô-la na esfera secreta, íntima, pessoal e privada. Um objeto indizível e misterioso, um objeto de pura beleza em que o desejo sensual e amoroso entram em simbiose e em que o espectador voyeur, relegado à sua fome “carnal”, consegue encontrar com sobriedade a essência do amor e da sua expressão física.