sexta-feira, 20 de junho de 2014

MADRUGADA PAULISTANA




















MADRUGADA PAULISTANA



A noite desceu em bruma densa

cobrindo tudo com sua cortina de organdi


tragando espigões e até a torre da Paulista


já que não pousam aviões nas altas horas


se o próprio aeroporto desapareceu...



Por onde andará a lua e os guarda-noturnos

a guardar, soturnos, riquezas alheias


a salvo – até quando – de ágeis gatunos


quem sabe por aí andará


Sherlock Holmes


perseguindo figuras sinistras


pelos becos da Luz...



O fog paulistano

não abafou os últimos ruídos


na São Bento um caminhão de lixo


recolhe os vestígios do dia


a fauna noturna fuça em sacos plásticos


vultos enrolados em sujos cobertores


se arrastam perto da Catedral


ou fazem ponto nos bancos da Praça da Sé...



No Bexiga cuidadores de carros e boêmios

acendem fogueiras na calçada


e quando os últimos debandam dos teatros

restaurantes e cantinas


lá está a neblina a confundir a visão


a fundir vultos na escuridão


dopando o que se mexe sobre a Terra


a sugerir um canto quente sob um teto.


As damas da noite estragam ainda os saltos

do sapato no pedregulho


e seguem noite adentro


aquecendo-se à base de impropérios


no breu da noite os semáforos


já não passam de vagos indicativos luminosos

para um trânsito que se esvai


mas não vai de todo


na cidade que não pode parar...



Um som metálico de latas derrubadas

sugere algum cão travesso ou faminto


e os miseráveis que não são de Victor Hugo


disputam os metros


debaixo de pontes e viadutos


estremecidos pelos caminhões de entrega


trapos dependurados agitam-se


nas minúsculas sacadas coladas ao Minhocão


milhões de pupilas cerram-se


comprimidas nos cortiços e favelas


fecham-se os últimos bares apagam-se as luzes


e só os olhos luminosos dos reclames de néon


cintilam na escuridão...

@ Renata Cordeiro