terça-feira, 8 de julho de 2014

ELA ERA O LÍRIO DESSE VALE...

Sir-Thomas-Lawrence-XX-Lady-Harriet-Maria-Conyngham-Later-Lady-Somerville


ELA ERA O LÍRIO DESSE VALE...

Dali se avista um vale que começa em Montbazon, acaba no Loire, e parece saltitar debaixo dos castelos postos nessas colinas duplas; uma magnífica taça de esmeralda no fundo da qual o Indre se revolve por movimentos de serpente. Na minha contemplação, fui tomado por um espanto voluptuoso que o tédio das charnecas ou o cansaço do caminho preparara. – Se essa mulher, a flor do seu sexo, mora em algum lugar do mundo, tal lugar é aqui.
Quando assim pensava, estava apoiado numa nogueira a cuja sombra, a partir daquele dia, descanso todas as vezes que volto ao meu querido vale. Debaixo dessa árvore, confidente dos meus pensamentos, interrogo-me sobre as mudanças por que passei durante o tempo transcorrido desde o último dia, aquele em que parti. Ela permanecia ali, o meu coração não me enganava: o primeiro castelo que vi no declive de uma charneca era a sua morada. Quando me sentei ao pé da minha nogueira, o sol do meio-dia fazia com que cintilassem as ardósias do seu teto e os vidros das suas janelas. O seu vestido de percal produzia o ponto branco que eu observei nas suas vinhas debaixo de um alpercheiro. Ela era, como vocês já sabem, sem nada saberem ainda, o lírio desse vale, impregnado do perfume das suas virtudes. O amor infinito, sem outro alimento a não ser um objeto apenas vislumbrado de que a minha alma estava repleta, eu o julgava expresso por essa comprida fita de água que jorra ao sol entre duas margens verdes, por essas fileiras de choupos que enfeitam com as suas rendas móveis esse vale de amor, por esses bosques de carvalhos que penetram, entre as vinhas, nos outeiros que o rio margeia sempre de maneira diferente, e por esses horizontes encobertos que desaparecem.

HONORÉ DE BALZAC (1799-1850)

Tradução de Renata Cordeiro