sexta-feira, 29 de agosto de 2014

VIVER



VIVER


Se leva o prazer á dor
e se a dor leva ao prazer
viver é tão-só correr
eternamente ao redor
da esfinge de todo amor!

É muito esquisita a esfinge
e o seu rosto não se atinge...;
mas em segredo eu o vi,
é a esfinge esqueleto em si,
todo amor a morte extingue.

ÁNGEL GANIVET (1865-1898)

Tradução de Renata Cordeiro

domingo, 17 de agosto de 2014

TEUS OLHOS


TEUS OLHOS

São teus olhos, meu bem, negros diamantes
em que reluz o sol do meio-dia;
olhos cheios de erótica poesia,
de chamas e promessas embriagantes.

Teus olhos são espelhos fulgurantes
que refletem a linda Andaluzia
com sua pompa, encantos e alegria,
seus campos e seus céus tão deslumbrantes.

Quando assomo às pupilas muito belas,
vejo pomares, mais árabes paços,
mares de prata e luz, noites de estrelas,

pátios floridos, feiras buliçosas,
a Giralda sorrindo nos espaços,
e muito amor nos céspedes e rosas.

MANUEL REINA (1856-1905)

Tradução de Renata Cordeiro

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

QUERENDO ENCORAJAR AS ALVAS ENCANTADAS...



QUERENDO ENCORAJAR AS ALVAS ENCANTADAS...

Querendo encorajar as alvas encantadas,
O sol, que te notava e que então te beijou,
Deixou na tua pele as tintas mais amadas,
Para pôr seus clarões que às rainhas lançou!

E borboletas grãs, com asas estampadas,
Lacaios com descaro e que um vento expulsou,
Sem responder ao elã das rosas alarmadas,
Aqui e ali, ao léu, cada qual voo alçou...

Eu respirei a flor do sol a mais benquista,
Brilhante nos jardins febris sob o calor,
Deplorando a lição de uma santa malvista,

Pois o sol, invejando o poeta raptor,
Covardemente pôs, sentinela imprevista,
Que velava, a serpente-instante nessa flor.

HENRY J.-M. LEVET (1874-1906)
Tradução de Renata Cordeiro