quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

RECONCILIAÇÃO







RECONCILIAÇÃO


Uma grande estrela cairá no meu colo*
A noite será de vigília
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
A noite será de reconciliação*
Há tantos Deuses caindo sobre nós.
Nossos corações são meninos
querem a paz, meigos-cansados
E os beijos em nossos lábios afloram
– Por que a hesitação?
Não se choca no limite o meu coração com o teu?
O teu sangue não pára de dar-me cor às faces
A noite será de reconciliação*
Se nos entregarmos, a morte não virá
Uma grande estrela cairá no meu colo*

 Else Lasker-Schüler (1869-1945)
Trad. de Renata Cordeiro

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A MULHER NUA



A MULHER NUA


Humana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia, deixarei de te ver,
e terás de ficar sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
(Estios; verdes frondas, águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo, calor e amor, mulher nua!)
Limite exato da vida, perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza, mulher nua:
um dia, se quebrará a minha linha de homem,
terei que me difundir na natureza abstrata;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!


Juan Ramón Jiménez

TRADUÇÃO DE RENATA CORDEIRO


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OS EXILADOS





OS EXILADOS



“Dor! Ao peito o ar natal nos tem tanto faltado!

Aqui, é lenta ao nosso corpo a seiva.

Montes, pinhos, mas onde, e aqueles nossos cabos

Cujo espinho, qual franja cobre as beiras?





“Onde o verde pendor dos nossos vales,

Em que o olhar se compraz nas filas tantas,

Formadas, margeando os argentinos mares,

Pelos tetos das nossas casas brancas?





“Onde o nórdico inverno e as tempestades grãs,

Gigantes de que tenho, aqui, saudade:

E o espesso nevoeiro e as festas folgazãs

Em que o prazer afasta a gravidade?





“Aqui, mesma estação e monótono céu;

O tempo muda muito pouco, às vezes.

No cálido ar, com pó, sussurra um vento ao léu.

Ah! Dai-nos nossas neves, nossos verdes!”





François-Xavier Garneau (1809-1866)
Tradução de Renata M. P. Cordeiro



domingo, 16 de fevereiro de 2014

AMO, AMAS, POEMA DE RUBÉN DARIO




AMO, AMAS



Amar, amar, amar, amar sempre, com todo 

o ser, a terra, o azul resplandecente,

com o claro do sol, com o escuro do lodo;

Amar com consciência e com desejo ardente.



E quando a tal montanha desta vida

nos for dura, alta, vasta e cheia de acidentes,

amar a imensidão pelo amor acendida

e queimar na fusão dos corações ferventes!



Rubén Dario (1867-1916)



Trad. de Renata Cordeiro