segunda-feira, 31 de março de 2014

SONETO



SONETO

Arder em viva chama, gelar logo,
mesclar fúnebre queixa e doce canto,
equivocar o riso com o pranto,
não saber distinguir neve nem fogo.

Confiança e temor, ânsia e sossego,
alento do espírito e quebranto,
efeito natural, força de encanto,
ver que estou vendo e contemplar-me cego;

a razão livre, presa esta vontade,
querer e não querer a qualquer hora,
pouquíssimo valor, muita vaidade;

oposição que esta alma sabe e ignora,
é o meu amor, Mársia, majestade.
Perguntais quem o causa? Vós, Senhora.

Eugenio Gerardo Lobo (1679-1750)
Tradução de Renata Cordeiro

quinta-feira, 27 de março de 2014

DAS VANTAGENS DE SER BOBO




DAS VANTAGENS DE SER BOBO**********

Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde:
"Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê.
César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

terça-feira, 25 de março de 2014

HINO



HINO
Jorge Luis Borges

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Agrigento se recordará
de que foi esse peixe.
Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem rosto traça a curva
do lombo de um bisão.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela aos seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os veados
de ouro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de cativar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta qual onda
e essas antigas coisas retornam
porque a mulher te beijou.

Tradução de Renata Cordeiro

domingo, 23 de março de 2014

SUAVE SONO!...




SUAVE SONO!...

Suave sono!... Vi em sonho, em fantasia,
Certa dama que o meu desejo despertava,
E era o desejo tão ardente que matava,
E há doze anos ou mais a dama eu não revia.

Minha alma, ante a visão, de gozo se imbuía,
E o Éden, subitamente, as portas descerrava:
E anjos nas nuvens, eu, que quase descorava,
Com a pura manhã do mundo, percebia.

A aurora me desperta, e os raios deslumbrantes
Do sol me açoitam onde a dama se escondeu,
Com a graça, a beleza, e a linha de brilhantes,

O universo reluz... Mas a alma escureceu,
Pois um sonho tão-só vislumbrara este amante,
Que ao duro despertar, de dor desfaleceu!...

Emanuel Ben Salomão de Roma (séc. XIII)

          Tradução de Renata Cordeiro

quinta-feira, 20 de março de 2014

MUDANÇA




MUDANÇA 


"A vida ensina que o amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim olhar juntos para fora na mesma direção". 
Antoine De Saint Exupéry


Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!

Clarice Lispector

terça-feira, 18 de março de 2014

PRIMEIRA CARTA PORTUGUESA

PRIMEIRA CARTA PORTUGUESA

Considera, amor meu, a que ponto chegou a tua intemperança. Infeliz! Foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto gozo já não é mais que desespero mortal, comparável apenas à crueldade da ausência que a provoca. Irá, então, essa distância, para a qual o meu pesar, por mais sutil que seja, não encontrou nome lamentável o suficiente, privar-me para todo o sempre de me debruçar nesses olhos em que já vislumbrei tanto amor, que despertavam em mim emoções que me invadiam de alegria, que bastavam para o meu contentamento, e, enfim, valiam tudo quanto há?Os meus olhos estão privados do único lume que os iluminava, não lhe restam senão lágrimas, e só os uso para chorar, desde que fiquei sabendo que te havias decidido por um afastamento tão insuportável que em pouco tempo me matará. No entanto, parece-me que até ao sofrimento, cuja única causa és tu, já me afeiçôo. Assim que te vi, a minha vida foi tua, e chego até a ter prazer em sacrificá-la a ti. Mil vezes por dia, os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por todos os lugares, e, em troca de tanta inquietude, só me dão mostras da minha sorte infeliz, que cruelmente não me concede engano algum e me diz a todo instante: *Pára, pobre Mariana, pára de te mortificares em vão, e de procurares um amante que não verás de novo, que atravessou mares para fugir de ti, que está na França circundado dos prazeres, que não pensa um só instante nas tuas dores, que te causa todo esse arrebatamento e nem sequer sabe agradecê-lo a ti* Não posso pensar que me esqueceste. Já não sou suficientemente infeliz sem o tormento de falsas suspeitas? E por que procurarei esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Fiquei tão encantada com os teus cuidados, que seria muito ingrata se não te desejasse com desvario igual ao que me levava à minha paixão, quando me dava mostras da tua. Como pode a recordação de momentos tão lindos se ter tornado tão cruel? E como pode isso, contra a própria natureza, agora só servir para me torturar o coração? A tua última carta reduziu este coração a um estado bastante ímpar: bateu de tal modo que parecia querer fugir de mim para ir procurar-te. Fiquei tão estarrecida de comoção que por três horas os meus sentidos ficaram suspensos: recusava uma vida que tenho de perder por ti, visto que para ti não posso mantê-la. Acabei voltando, contra a minha própria vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além disso, era um alívio não enfrentar de novo o meu coração partido pela dor da tua ausência. Após esse incidente, tenho sofrido muito, mas como poderei não sofrer se não te vejo? Porém, suporto o meu pesar sem queixas, porque me vem de ti. Então é isso que me dás em troca de tanto amor? Mas, pouco importa, resolvi-me a adorar-te por toda a vida e a não ver ninguém, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais pessoa alguma. Tu te poderias contentar com uma paixão menos ardente do que a minha? Talvez até encontrasses mais beleza (houve um tempo, contudo, em que me dizias que eu era muito bonita), porém não encontrarias nunca tanto amor, e o resto não é nada. Não cumules as tuas cartas de coisas inúteis, nem me peças de novo que me lembre de ti. Não posso esquecer-te, e tampouco me esqueço da esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Por que não desejas passar a vida toda ao meu lado? Se eu pudesse sair deste infausto convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria pessoalmente, sem me importar com conveniências, à tua procura, e seguir-te, amar-te por toda parte. Não ouso crer que isso possa acontecer; tal esperança, com certeza, me daria algum consolo, porém não quero alimentá-la, porque só devo entregar-me à minha dor. Mas quando o meu irmão me permitiu escrever-te, confesso que senti um tumulto de alegria dentro de mim, que me fez esquecer, por alguns instantes, o desespero em que vivo. Rogo-te que me digas por que teimaste em me deixar louca assim, sabendo, como o sabias, que acabarias por me deixar? Por que te esforçaste tanto por me desgraçar? Por que não me deixaste em paz no meu convento? Porém, perdoa-me; não te culpo de nada. Não estou em condições de pensar em vingança, e acuso só o rigor da minha sina. Quando nos separaste, acho que nos fez o pior dos pesares, mas não consigo afastar o meu coração do teu; o amor, muito mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me de quando em quando. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e, principalmente, vem ver-me. Adeus. Não consigo separar-me deste papel que chegará às tuas mãos. Quem me dera ter a mesma sorte! Que loucura a minha! Sei muito bem que isso é impossível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.

Tradução do original francês por Renata Cordeiro

sábado, 15 de março de 2014

SONETOS FILOSÓFICOS-MORAIS - 145



J. W. Watherhouse, Mariana in the south 
 
SONETOS FILOSÓFICOS-MORAIS

145

Procura desmentir os elogios inscritos num retrato da Poetisa pela verdade, a que se chama paixão.

Este, que vês, engano colorido,
que vai da arte ostentando os seus primores,
com falsos silogismos multicores
é cauteloso engano do sentido;

este, em quem a lisonja tem querido
escusar destes anos os horrores,
e vencendo do tempo os seus rigores
derrotar a velhice e o eterno olvido,

é um vão artifício do cuidado,
é uma flor ao vento delicada,
é um resguardo inútil para o fado:

é uma diligência néscia e errada,
é um afã caduco e, bem mirado,
é cadáver, é pó, é sombra, é nada.

SOR JUANA INÉS DE LA CRUZ (1651-1695)

Tradução de Renata Cordeiro

terça-feira, 11 de março de 2014

NOITE ESCURA

 

NOITE ESCURA


Em certa noite escura,
pelas ânsias de amores inflamada
ó ditosa ventura!
saí sem ser notada,
estando a minha casa sossegada.

No escuro mui segura
pela secreta escada, disfarçada,
ó ditosa ventura!
no escuro e na calada,
estando a minha casa sossegada.

Na noite afortunada,
oculta, pois ninguém ver-me podia
tampouco eu via nada,
sem outra luz e guia
além da que no peito meu ardia.

Esta aqui me guiava 
mais certo do que a luz do meio-dia,
lá onde me esperava
quem eu bem o sabia,
onde nunca ninguém aparecia.

 Ó noite que guiaste!
ó noite mais amável que a alvorada!
ó noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

No meu peito florido,
que só para ele todo se guardava,
ficou adormecido,
e eu pois o regalava
e um leque só de cedros vento dava.

O ar pela ameia entrava
e quando o seu cabelo eu esparzia
com mão que serenava
meu pescoço feria
e todos meus sentidos suspendia.

Eu parei e olvidei-me,
o rosto reclinei sobre esse Amado;
cessou tudo e entreguei-me,
deixando o meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.

San Juan de La Cruz (1542-1591)

Tradução de Renata Cordeiro

sábado, 8 de março de 2014

A BELA DAMA SEM PIEDADE





A BELA DAMA SEM PIEDADE


O que pode  estar te perturbando?
Tão só, pálido, 
Que tudo ao redor quase não passa?
As sebes estão secas às margens do lago
E nenhum pássaro canta!
O que pode estar te perturbando?
Teu rosto revela sofrimento e dor
A toca do esquilo está farta,
A colheita está feita,
Percebo uma flor em tua fronte
Úmida de orvalho febril, aflito, 
Na testa a rosa já sem brilho sem frescor
Rápida, também murcha!

Encontrei a dama nos campos
Tão linda...a jovem fada.
Tinha longos cabelos, passos leves
Olhos selvagens,
Teci-lhe guirlanda e a coroei
Fiz-lhe braceletes, 
Rodeei-a de perfumes. 
Olhou-me como se de mim gostasse
E suspirou docemente!

Eu a pus no meu cavalo e a segui.
E nada mais vi durante todo o dia!
Pelos caminhos ela me abraçou e cantava
A canção de fadas!

Trouxe-me raízes de suave alívio,
Mel silvestre orvalho da manhã,
E numa estranha linguagem disse
Eu te amo verdadeiramente!

Levou-me à sua caverna de fada,
Chorou e soluçou dolorosamente.
Fechei-lhe os selvagens olhos,
Com quatro beijos,
Embalou-me com doçura o sono.
Então sonhei,
Ah! doce desassossego!

O último sonho
 Na fria borda da colina
Vi pálidos reis príncipes guerreiros
De mortal palidez todos.
 Gritaram-me:

"A Bela Dama sem Piedade
Também o escravizou!"

Vi os seus lábios famintos sombrios
Abertos em horríveis avisos.
Quando despertei estava 
Na fria borda da colina.
Por isso que permaneço aqui
Tão só, pálido! 
Que tudo ao redor não passa.
Junto às sebes secas às margens do lago,
Onde nenhum pássaro canta.


John Keats (1795-1821)

Tradução de Renata Cordeiro
 

terça-feira, 4 de março de 2014

A CASA E A MULHER NA ERA VITORIANA NA PINTURA DE JOHN O´BRIEN


MULHER COM VESTIDO BRANCO
MULHER COM VESTIDO LILÁS
MULHER COM VESTIDO VERDE
MULHER COM VESTIDO ROSA


***
Tenho uma casa vitoriana no lugar do coração. Ou um coração em forma de casa vitoriana. É alta, a casa. É azul-alfazema e tem janelas e portas amplas, de puro cristal, sempre limpo e transparente. As cortinas são de organdi...

segunda-feira, 3 de março de 2014

A FILOSOFIA DO AMOR






O Bem é o centro magnético para o qual o amor se dirige naturalmente. O amor falso se dirige para o falso Bem. O amor falso abraça uma falsa morte. Quando o verdadeiro Bem é amado, mesmo de maneira impura ou por acidente, a qualidade do amor fica, de imediato, refinada. Quando a alma está voltada para o Bem, a parte superior da alma se anima. O amor é a tensão entre a alma imperfeita e a perfeição magnética que imaginamos encontrar para-além. Se tentarmos amar de forma perfeita o que é imperfeito, nosso amor se entregará ao seu objeto através do Bem, para ser purificado e se tornar generoso e justo. O amor é o nome geral da qualidade de apego; pode imensamente degradar-se e é a fonte dos nossos maiores erros. Ainda que seja, em parte, refinado, o amor é a energia e a paixão da alma na sua busca de Deus, a força que nos vincula no cerne Bem, assim como no cerne do mundo, por meio do Bem. A sua existência é o sinal inegável de que somos criaturas espirituais, atraídas pela excelência, e feitas para o Bem. É o reflexo e a luz do Sol.

Iris Murdoch (1919-1999)

Traduzido por Renata Cordeiro

sábado, 1 de março de 2014

MARCAS QUE DEIXAMOS NOS OUTROS


MARCAS QUE DEIXAMOS NOS OUTROS


Nós estamos condicionados a pensar

que nossas vidas giram em torno apenas de grandes momentos.

Todavia, os grandes momentos

frequentemente nos pegam desprevenidos,

e ficam maravilhosamente guardados

em recantos que os outros podem considerar sem importância.

E da mesma forma ocorrem outros momentos.

As pessoas podem não lembrar-se exatamente do que você fez ou até 

mesmo de todas as  palavras que você disse, mas sempre se lembrarão 

de como você as fez sentir.
Mário Lago (1911-2002)