terça-feira, 29 de abril de 2014

A CRISTALIZAÇÃO DO AMOR

         
   

 A CRISTALIZAÇÃO DO AMOR

           

Em Salzburgo, lança-se, nas profundezas das minas, um ramo de árvore desfolhado pelo inverno; dois ou três meses depois, ele é retirado, coberto de cristalizações brilhantes: os galhos menores, que não são mais grossos do que a pata de um chapim, estão enfeitados de uma infinidade de diamantes, móveis e resplandecentes; não é mais possível reconhecer o ramo primitivo.
O que eu chamo de cristalização é a operação do espírito que descobre em todas as coisas novas perfeições do ser amado.
                                                                                      (DO AMOR)

Henri Beyle – Stendhal (1783-1799)

Tradução de Renata Cordeiro

terça-feira, 22 de abril de 2014

ODE À ALEGRIA

O Beijo, de Klimt (1908)

ODE À ALEGRIA

Meus amigos, em vez desses sons, entoemos
Aquele que nos deixe o peito alegre e pleno!
Ludwig van Beethoven (1770-1827)

Alegria, divo fulgor,
Formosa filha do Eliseu,
Entremos, ébrios de calor,
Nesse templo sagrado teu!
Reúne a tua encantação
O que a moda, estrita, separa,
Os homens se tornam irmãos,
Onde cada asa tua pára.
Que aquele que conseguiu ter
Amigo fiel e leal,
Ou que achou formosa mulher,
Se junte à alegria geral!
E quem só uma alma disser
Que é a sua felicidade!
Quem, aos prantos, não o puder,
Que abandone esta sociedade.
De alegria ebriem-se os entes
Nos seios da grande Natura.
Os bons e até os malevolentes
Sigam-lhe a trilha rosa e pura.
Ela nos dá beijos e o vinho,
O amigo que à morte se adiante
A volúpia ao verme daninho,
E o querubim a Deus perante!
Os sóis traspassam, que alegria,
Do céu, a abóbada de glória!
Segui, irmãos, a travessia,
Como os heróis rumo à vitória!
Ó multidões, vos abraçai!
Que siga pelo mundo o abraço!
Acima, bem no alto, no espaço,
Deve residir um bom Pai!
Ó multidões, desistis já?
Mundo, procurai passo a passo
O Criador. ­–  Bem no alto, no astro,
Para além, Ele habitará!

Frederich von Schiler (1759-1805)

Tradução de Renata Cordeiro

quinta-feira, 17 de abril de 2014

AS FLORES DO MAL, XXXVIII. UM FANTASMA II O PERFUME



AS FLORES DO MAL, XXXVIII. UM FANTASMA

II

O PERFUME

Recordas-te de teres respirado,
Ébrio e com gula que se volatiza,
O incenso que uma missa aromatiza
Ou de um sachê o almíscar inveterado?

Mágico encanto, fundo, que improvisa
No presente, o valor do já passado!
Qual o amante no corpo idolatrado
Apanha a fina flor que memoriza.

Do seu cabelo elástico e pesado,
Incensório de alcova, que cheirava
A sachê, vinha o odor feroz e irado,

Do traje: musselina, aveludado,
Onde a tua flor moça se impregnava,
Vinha o cheiro do pano que o forrava.

Charles Baudelaire (1821-1867)

Tradução de Renata Cordeiro

terça-feira, 15 de abril de 2014

OS SAPATOS VERMELHOS





OS SAPATOS VERMELHOS

 Hans Christian Andersen, 1835 : “uma menininha muito orgulhosa dos seus novos sapatos vermelhos decide usá-los sempre, até mesmo na igreja, onde não é conveniente. Não conseguirá tirá-los nunca  mais, e terá de andar, correr, dançar, até o dia em que, extenuada, irá à procura do carrasco para que ele lhe corte os pés”, p. 248
“O objeto que muda a vida”. In: Andersen, H. C. Contos e histórias. São Paulo, Landy, 2004. Concepção e tradução (Introdução, seleção, tradução, notas, apêndice, imagens do miolo originais de Vilhem Pedersen e Lorenz Frolich, imagem da capa A Dança de Alfons Mucha, 1848 ) por Renata Maria Parreira Cordeiro, esta que escreve.
Esta é uma das muitas histórias ou contos não escritos para crianças por Andersen (quase todos o são,  parece contraditório, mas não o é).  Segundo as suas próprias palavras “Minha vida é um lindo conto, marcado pela sorte e pelo sucesso”.
A publicação (de 1971 a 1977) da sua vasta correspondência, do seu Diário, Agenda, Observações e Caderno de anotações fornece ideias extraordinariamente diversas da sua vida, obra e complexa personalidade.
Uma dessas ideias é a de que quando Andersen tinha a intenção de escrever um conto ou história, não pensava primeiro nas crianças, mas nos adultos. [...] por vezes, ele chegava até mesmo a se irritar quando queriam levar crianças para ouvi-lo, e poucos meses antes de morrer, se indignou contra uma estátua sua feita pelo escultor Saaby, em que ele está cercado de crianças: “Eu disse (...) que os meus contos eram, tanto para os adultos quanto para as crianças, e que estas últimas compreendiam somente as personagens secundárias, e que só as pessoas maduras viam e compreendiam tudo” (Diário, 4 de junho de 1875).
Voltando à la vache froide, o que o escritor quer mostrar em Os Sapatos vermelhos, tanto na sua época quanto agora, é: há tempo e lugar para tudo nesta vida. Os lugares estão explícitos. O tempo* Calma, uma coisa de cada vez, um dia após o outro, senão se pode pagar um preço, que no caso, é logo cobrado e altíssimo. A menina tem 5 anos, é vaidosa e quer calçar os seus lindos sapatos. Tem seu desejo realizado e não consegue jamais parar, o que lhe custa a vida.
No cinema há esta versão de 1948, em que a história é transposta para uma jovem, que deseja o sucesso a qualquer preço. Apologize! sorry, dear, it´s too late.  Dançando, não adianta mais pedir desculpas, é tarde, ela morre.
Há uma versão recente, coreana, classificada como filme de horror. A mulher fica obcecada pelos sapatos e sai que nem uma louca atrás deles, ainda que estejam nos seus pés. Sonho e realidade, no filme, se mesclam.





Renata Maria Parreira Cordeiro
Aqui na Galeria fiz uma Apologia ao filme com o Apologize. O tempo da alegoria de Os Sapatos Vermelhos é o infantil, não importa a idade.







sábado, 12 de abril de 2014

FRIDA KAHLO


AUTO-RETRATO COM COLAR DE ESPINHOS
AUTO-RETRATO COM VESTIDO DE VELUDO
SUICÍDIO DE DOROTY HALE
AUTO-RETRATO COM RETRATO DO DOUTOR FARILL
AUTO-RETRATO
COLUNA QUEBRADA

POEMA DE FRIDA KAHLO
 
Eu sou diferente 
Alguns dizem, estranha 
digo que inspirar-me em minhas dores
nem sempre é um bom motivo 
como os outros 
a vida nunca é um bom motivo
a realidade não é a mesma para mim
os macacos andam os gatos ronronan
os pássaros cantam
espinhos me apertam o coração
sangrar
dor
eles não me conhecem
e posso ver mais do que lágrimas

Tradução de Renata Cordeiro
 
Ps: A VIDA = O AMOR, É O MOTIVO!
***

quinta-feira, 10 de abril de 2014

TORNA-SE A NOITE OBSCURECIDA













TORNA-SE A NOITE OBSCURECIDA

Torna-se a noite obscurecida,
Vem o vento violento;
Mas detém-me o encantamento,
E é-me impossível a partida.

Curvam-se árvores colossais,
     Sob neve, o galho a se abrir,
       São rápidos vendavais,
Mas eu não posso inda partir.

A nuvem sobre mim revolve,
Sob os meus pés, não há vida;
O lúgubre não me move;
É-me impossível a partida.

Emily J. Brontë (1818-1848)
Tradução de Renata Cordeiro

terça-feira, 8 de abril de 2014

SEM PALAVRAS



SEM PALAVRAS


Mil vezes com palavras de doçura
minha paixão a ti quase confio;
que palavras porém acho e te envio,
sem a profanação dessa impostura?

Penetre em ti calada esta ternura,
sem deter-se no mínimo desvio,
como raio de lua em claro rio,
como aroma sutil em aura pura.

Abre-me a alma silenciosamente,
e deixa-me que inunde satisfeito
tuas terras de amor e encanto cheias...

Fiel idéia, animo a tua mente;
afeto doce, vivo no teu peito;
chama suave, corro em tuas veias.

Adelardo López de Ayala (1828-1879)
Tradução de Renata Cordeiro

domingo, 6 de abril de 2014

E QUANDO A TERRA FRIA...



E QUANDO A TERRA FRIA...

E quando a terra fria
hospedar o meu corpo,
que valerá que deixe
aqui renome eterno,
que me erija um amigo
sepulcral monumento,
que escreva a minha vida,
que publique os meus versos,
que damas e galantes,
de crianças a velhos
me leiam, e me chorem
meus parentes e afetos?
Essa fama, essa glória,
a que aspiram mil néscios,
não me dá, quando vivo,
vaidade nem consolo.
Não quero eu outra fama,
outra glória não quero
senão que se ouça em boca
de crianças a velhos,
de damas e galantes,
de parentes e afetos:
“Esse homem amou Laura,
e Laura é que o matou.”

Tomás Iriarte (1750-1791)

Tradução de Renata Cordeiro

quinta-feira, 3 de abril de 2014

CORRESPONDÊNCIAS



CORRESPONDÊNCIAS

A Natureza é templo assentado em pilares
Vivos, de onde provêm palavras intrigantes;
É dos símbolos, bosque a observar viandantes,
Lançando-lhes os seus coniventes olhares.

Como ecos que no vasto espaço se confundem
Até à tenebrosa e abismal unidade,
Enorme como a noite e como a claridade,
Os perfumes, os sons e toda cor se fundem.

Há cheiros frescos quais a carne dos infantes,
Verdes, quais prados, têm o dulçor do oboé
– E há corrompidos, há preciosos, triunfantes,

E duma infinidade estão já expandidos,
Qual o âmbar, mais o incenso, o almíscar e o aloé
Que cantam o transporte, o da alma e o dos sentidos.

Charles Baudelaire (1821-1867)

Tradução de Renata Cordeiro

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ATÉ A FIM DO MUNDO



ATÉ A FIM DO MUNDO[1]


A HISTÓRIA DE PEDRO E INÊS

Em 1320, em Coimbra, nasceu o príncipe D. Pedro, filho de D. Afonso IV, rei de Portugal. Em 1340, após a vitória decisiva da cristandade sobre a mourisca Península Ibérica, de que participou D. Afonso IV ao lado de Afonso XI de Castela, Inês de Castro, a loira e belíssima aragonesa, foi a Portugal como dama de honra de D. Constança, noiva castelhana de D. Pedro. Ocorreu, porém, entre D. Pedro e Inês uma paixão fulminante e, por isso, Inês foi exilada no Mosteiro de Santa Clara. Por volta de 1349, morreu D. Constança. Pedro foi buscar Inês, levou-a para Coimbra, onde a desposou em sigilo. O fruto dessa união foram quatro filhos, mas um morreu. Chamavam-se D. Pedro, D. Beatriz e D. Dinis. Influenciado pelos Castros (irmãos de Inês), que foram à Corte de Castela, onde reinava Pedro I, primo de D. Pedro de Portugal, este decidiu intervir nas lutas dinásticas castelhanas, pois lá se preparava uma revolução contra D. Pedro I. Se D. Pedro de Portugal ajudasse o primo a ganhar a guerra, ficaria com a Corte de Castela. O Conselho do rei Afonso IV (pai de D. Pedro), porém, temia que Castela ganhasse e que Portugal perdesse a coroa. Decidiram, portanto, que o melhor seria matar D. Inês. Então, na escada do Palácio de Santa Clara, em Coimbra, ela foi “apunhalada” (na verdade, foi decapitada, como cabia aos nobres, embora os poetas dissessem o contrário, pois é mais dramático e romântico), deixando D. Pedro furioso e sedento de vingança. D. Pedro pegou em armas contra o pai. Com a sua tropa, tentou até mesmo ocupar a cidade do Porto. O bispo de Braga resolveu apaziguar a desavença e D. Pedro se acalmou, pois a guerra civil envolveria o massacre de inocentes. Então, o rei exigiu que D. Pedro não perseguisse os matadores de Inês de Castro e o príncipe lhe garantiu que já lhes havia perdoado. O rei fingiu aceitar a palavra dada, mas não deixou de desconfiar dela. De qualquer modo, começou a partilhar com o filho o mando e o comando do reino. Mas, quando em 1357, D. Afonso IV caiu no leito de morte, ainda teve forças para aconselhar os assassinos a se exilarem em Castela. Pelo sim, pelo não, os três fugiram e cruzaram a fronteira. Morreu D. Afonso IV e D. Pedro subiu ao trono. A sua primeira medida foi combinar com D. Pedro de Castela a troca de assassinos castelhanos em Portugal por assassinos portugueses em Castela. Foi assim que foram entregues à justiça portuguesa os algozes de Inês: Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Diogo Lopes Pacheco conseguiu fugir a tempo de Castela para Aragão e dali para a França. Enquanto trinchava e comia a carne mal passada e bebia o vinho tinto, D. Pedro I ia assistindo à demorada tortura de Pero Coelho e de Álvaro Gonçalves. A um, arrancam-lhe o coração pelas costas, a outro pelo peito.
Os nobres murmuram, apavorados:
– O rei trai a palavra dada...
Mas um homem-bom
[2] diz:
– Quem trai a quem fez traição, tem cem anos de perdão.

D. Pedro I decidiu preservar a memória de Inês de Castro. Mandou esculpir dois túmulos, um para ela, outro para ele. Foram postos, a princípio lado a lado, mas logo a seguir frente a frente para que no dia do Juízo final, eles se pudessem reencontrar e olhar nos olhos. Os baixos relevos do túmulo de D. Inês representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Sobre a tampa está esculpida a imagem de Inês, de corpo inteiro, coroada como rainha. As esculturas do túmulo de D. Pedro representam cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a Portugal. Ambos os túmulos foram postos dentro da igreja, perto da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Em 1361, D. Pedro mandou trasladar os restos mortais da amada, do Mosteiro de Santa Clara para o de Alcobaça. Os restos mortais seguiram numa liteira de luxo, conduzida por grandes cavaleiros, acompanhada por muita gente, nobres, clérigos, burgueses e plebeus. Pelo caminho até Alcobaça, muitos homens com círios nas mãos. No Mosteiro, muitas missas e solenidades para depositar os restos de Inês no túmulo novo. Em seguida, D. Pedro forçou os nobres a prestar vassalagem a D. Inês, obrigando-os a beijar a mão do cadáver. Depois da morte de Inês, D. Pedro não voltou a casar-se ou a amancebar-se. Sabemos apenas que uma certa Teresa Lourenço teve ainda um bastardo a quem pôs o nome de João. Naqueles tempos, todo homem que se prezasse, em casa tinha filhos legítimos e fora de casa, bastardos. O curioso é que esse bastardo João viria a ser o futuro Mestre de Avis, fundador da segunda dinastia portuguesa. D. Pedro morreu em Extremoz, e o seu corpo foi depositado no túmulo do Mosteiro de Alcobaça, frente ao túmulo de Inês. Governou o reino durante dez anos. E dizia o povo, choroso, que aquele rei nunca havia de morrer e que “tais dez anos nunca houvera em Portugal” como aqueles em que reinou D. Pedro.

por 
Renata Cordeiro

***
TRISTÃO E ISOLDA

PARALELOS ENTRE A HISTÓRIA DE TRISTÃO E ISOLDA E A DE PEDRO E INÊS

Embora as narrativas da história de Tristão e Isolda comecem a ser escritas no século XII na França e se é verdade que tal história existiu, isso só deve ter acontecido por volta do século VII, é possível, guardadas as devidas proporções, traçar alguns paralelos entre a história de Inês e Pedro, que realmente existiu no século XIV, e a de Isolda e Tristão. Assim como o amor de Tristão e Isolda é proibido, pois Isolda é casada com o tio dele, o rei Marcos, o amor de Pedro e Inês também o é, porque ele é casado com D. Constança, de quem Inês é dama de honra. Esse é mais um ponto em comum, só que às avessas: enquanto Tristão é vassalo do rei, Inês é aia da princesa. No que diz respeito ao aspecto de Isolda e Inês, as duas são belíssimas e loiras. Os amores de ambos os casais são fulminantes, escancarados e impossíveis de controlar, embora Tristão e Isolda não se casem oficialmente, porque Marcos não morre, porém ela já se havia casado antes com Tristão, pois foi com ele que perdeu a virgindade. Além disso, ambos vivem como marido e mulher quando estão no exílio na floresta. Conta-se também que enquanto Inês estava no Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, os amantes enviavam bilhetes por um túnel feito por uma casca de árvore que ia dar na fonte dos amores no Palácio de Santa Clara. O mesmo ocorre em algumas versões de Tristão e Isolda, em que os amantes marcavam encontros, fazendo uso do mesmo expediente, depois que Tristão foi expulso do castelo. Enfim, a morte não separa nenhum dos casais. Isolda morre ao ver Tristão morto. Marcos vai à Bretanha e manda enterrar os corpos lado a lado em túmulos separados. Mas do túmulo de Tristão, dependendo da versão, ora nasce um espinheiro que mergulha no túmulo de Isolda, ora uma cepa de vinha e uma roseira entrelaçadas para sempre, ora dois salgueiros, igualmente entrelaçados para sempre, ora dois arbustos, ora outras plantas, sempre ligadas ad aeternum. Já Pedro manda construir dois túmulos, um diante do outro para que na hora do Juízo Final os amantes se possam reencontrar e olhar nos olhos, além de obrigar os nobres a fazerem o beija-mão da rainha depois de morta. A morte, em vez de separar Tristão e Isolda e Pedro e Inês, pelo contrário os une, até a fim do mundo.

por
 Renata Cordeiro