quinta-feira, 29 de maio de 2014

EIS QUE DORMEM...



EIS QUE DORMEM...

Eis que dormem na tumba estas paixões
e este sonho do nada;
é loucura do dolorido espírito,
ou um verme que eu tenho nas entranhas?
Eu sei apenas que é prazer que dói,
que é dor que atormentando só afaga,
chama que só da vida se alimenta,
mas sem a qual a vida então se apaga. [...]

ROSALÍA DE CASTRO (1837-1885)
Tradução de Renata Cordeiro

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O AMOR DE PAULO E VIRGÍNIA






 O AMOR DE PAULO E VIRGÍNIA

Entretanto, uma vez que era chegada a hora do jantar, pusemo-nos à mesa, onde cada um dos convivas, agitado por diferentes paixões, comeu pouco, e não falou. Virgínia foi a primeira a sair, indo sentar-se no lugar onde estamos. Paulo a seguiu de imediato, e veio para perto dela. Ambos mantiveram por algum tempo um profundo silêncio. Era uma dessas noites deliciosas, tão comuns nos trópicos, e cuja beleza o mais hábil pincel não reproduziria. A lua surgia no meio do firmamento, circundada de uma cortina de nuvens, que os seus raios dissipavam aos poucos. A sua luz se espalhava imperceptivelmente pelas montanhas da ilha e pelos seus cumes, que brilhavam com um verde argênteo. Os ventos prendiam a respiração. Ouviam-se, na mata, no fundo dos vales, na extremidade das rochas, gritinhos, doces murmúrios de pássaros que se acariciavam nos seus ninhos, regozijados pela claridade da noite e pela tranqüilidade do ar. Todos, inclusive os insetos, sussurravam sob a erva. As estrelas cintilavam no céu e se refletiam bem no meio do mar, que repetia as suas imagens trementes. Virgínia percorria com olhar distraído o seu vasto e escuro horizonte, distinguido da orla da ilha pelos faróis vermelhos dos pescadores. Vislumbrou, na entrada do porto, uma luz e uma sombra: era o fanal e o corpo do navio em que ela teria de embarcar para a Europa, e que, pronto para içar velas, esperava ancorado o fim da calmaria. Quando viu isso, ficou perturbada, e virou o rosto para que Paulo não a visse chorar.



BERNARDIN DE SAINT-PIERRE (1737-1814)


Trad. da Renata Cordeiro

domingo, 18 de maio de 2014

PRIMEIRO FRAGMENTO ACERCA DO AMOR (EXCERTO)







PRIMEIRO FRAGMENTO ACERCA DO AMOR (EXCERTO)
MARÍA ZAMBRANO (1904-1991)





Uma das indigências dos nossos dias é o Amor. Não porque o Amor não exista, mas porque a sua existência não encontra espaço onde habitar, nem tampouco acolhida na própria alma que Ele visita. No ilimitado espaço que, na aparência, a mente contemporânea abre a toda e qualquer realidade, o Amor se depara com infinitas barreiras. E precisa justiçar-se, dar inúmeras razões, e resignar-se a ser confundido com os múltiplos sentimentos, ou instintos, se não quer esse lugar obscuro da “libido”, ou ser tratado como doença secreta, de que todos deveriam libertar-se. A liberdade, ou melhor, todas as liberdades não lhe parecem ter servido de nada, pois, à medida que o ser humano foi acreditando que o seu “ser” era pura e simplesmente a consciência, o Amor foi ficando premido, sem espaço vital onde respirar, como o pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa.
Trad. da Renata Cordeiro

quinta-feira, 15 de maio de 2014

É PARA TI A FLOR QUE APANHEI...




É PARA TI A FLOR QUE APANHEI...


É para ti a flor que apanhei na colina.

No penhasco que sobre o oceano se inclina,

E que só pode ser por águias acercado,

Em paz, crescia em meio às fendas do rocado.

A sombra ia banhando o triste promontório;

Eu via erguer em tão glorioso território,

Qual arco triunfal, vermelho e cintilante,

Onde fora engolido o sol, astro reinante,

O nuvioso portal da noite escurecida.

Naus fugiam ao longe assim diminuídas;

E tetos, reluzindo ao fundo de um desvão,

Pareciam temer que os vissem ao clarão.

É para ti a flor que apanhei bem-amada.

É pálida e não tem corola perfumada.

Sua raiz tomou nos montanhosos cimos

Somente o amargo odor daqueles glaucos limos;

Eu disse: "Pobre flor, do píncaro alteroso

`Tu devias cair no abismo cavernoso

`Para onde a alga, as naus e as nuvens sempre vão.

`Morre no abismo mais profundo, o coração.

`Fana no peito em que há um mundo a palpitar.

`Determinou-te o céu na onda desfolhar,

`Fez-te para o oceano, e te oferto ao amor."

O vento misturava as ondas, e um fulgor

Confuso e levemente apagado era o dia.

Oh! Com a flor, pensando, o quão me entristecia

Com meus sonhos, com a alma imersa na negrura

Da voragem, mesclada às vesperais tremuras!

Victor Hugo (1802-1885)

Tradução de Renata Cordeiro

domingo, 11 de maio de 2014

ODE À CASSANDRA***********



ODE À CASSANDRA***********

Vejamos, meu bem, se a tal rosa
Que de manhã abriu, formosa,
Ao sol o vestido vermelho,
Não perdeu à tarde o esplendor
As pregas de encarnada cor,
E o tom ao vosso tão parelho.

Ah! Vede como em pouco tempo,
Meu bem, veio-lhe o tombamento,
E o viço perdeu, todavia!
Como é madrasta a Natureza,
Porque tal flor perde a beleza
E não vive sequer um dia!

Assim, meu bem, eis a verdade:
Enquanto estais na flor da idade,
Nos primeiríssimos verdores,
Colhei, colhei a juventude:
Porque também a senectude
Há de ofuscar vossos fulgores.

Pierre de Ronsard (1525-1585)
Trad. da Renata Cordeiro

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quarta-feira, 7 de maio de 2014

UM CONTO DE AMOR***************



UM CONTO DE AMOR******************







Numa noite fria demais num lugar onde eu ia sempre, lá estava ele pela primeira vez. Vimo-nos. Aquecemo-nos. Continuamos indo e vindo durante uns meses, porque o lugar onde nos conhecemos era mais ou menos a meio caminho entre as nossas cidades.

Sem nada, só com a vontade de sermos felizes, resolvemos virar a vida do avesso e mudei-me para um verdadeiro lugar estranho, quase tão estranho como o amor que lá me levou. Justo eu que sempre disse que nunca sairia de Sampa. Devagar, entre cabeçadas, vivendo e aprendendo, vou me habituando ao nosso lugar, em que tenho que acreditar em mim porque há alguém que o faça, porque há alguém que seja capaz de virar o mundo ao contrário para me fazer sorrir, porque nunca mais me senti sozinha.

Triste? Algumas vezes, nos dias menos bons. Mas até nesses, nos dias de gritos e choro, é ele quem me ouve, respira fundo, passa-me a mão no cabelo, beija-me, ama-me. Entre viagens a cidades românticas como Paris e Veneza, foi em nossa casa, num dia em que estava doente, que ele decidiu declarar-se e, de joelhos e com um anel, disse-me *eu te amo* de um jeito e de jeito que não teve jeito, fiquei.

Porque o amor é isso mesmo. Momentos bons, momentos menos bons, em que o que importa é estarmos juntos e termos quem cuide de nós. Hoje sou eu que estou doente e ele saiu, foi comprar pastilhas para a garganta.

Se o nosso amor é perfeito? Um não redondo, e sempre me pego pensando por que me entreguei a essa maravilha que ninguém entende. Mas depois olho para nós, para o caminho que percorremos os dois que tantas vezes se deveu à força que demos um ao outro. E olho para tudo o que temos, tantos desejos e vontades e *este grande amor que nos une*.









@ Renata Cordeiro

segunda-feira, 5 de maio de 2014

UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA


UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA
Esse obscuro objeto do desejo.
Bélgica, França, Suíça, 1999
Direção: Frédéric Fonteyne
Roteiro: Philippe Blasband
Com: Nathalie Baye, Sergi López, Jacques Viala, Paul Pavel, Sylvie Van den Elsen, Pierre Gerrainio, Hervé Sogne
Título Original: Une liason pornographique
Drama, romance
CURTA
Nesse filme, um homem e uma mulher descobrem que não é tão simples como eles pensaram ter uma relação estritamente sexual. Ambos com seus 40 e poucos anos se conhecem através de um anúncio de jornal, em que ela diz que está à procura de um homem que realize uma fantasia sexual sua. Concordam em se encontrar uma vez por semana para uma relação sexual. Os encontros têm que ser excitantes, porém impessoais. Os dois combinam que nenhum saberá o nome do outro ou fará perguntas que não tenham a ver com os seus encontros. Nada do que acontece entre eles nos é dito ou mostrado. No entanto, aos poucos, um sentimento brota e cresce dentro deles, e depois de muitas semanas, ele a convida para jantar antes de irem ao hotel. Após alguns meses, ela sugere que eles deveriam tentar fazer amor de forma “tradicional” pela primeira vez. Esses acontecimentos os aproximam e a natureza do relacionamento muda. Essa mudança é simbolizada mais claramente quando um homem tem um colapso no hall do hotel e os dois, juntos, o levam para o hospital. O filme nos desconcerta pelo seu tratamento que vai de encontro à sexualidade atual. Não é mais o amor incipiente que é posto em questão pela sexualidade, mas é a sexualidade que é questionada pelo amor, sendo, este último, por sua vez, posto em questão ultimamente pelo individualismo urbano e pelo medo do compromisso. Frédéric Fonteyne nos apresenta, em forma de documentário, entrevistas com as duas personagens fictícias que relembram a paixão que nasceu graças aos pequenos anúncios, um amor com o qual eles jamais conseguiram lidar, nem confessar realmente. Em seguida, o cineasta se lança numa série de travellings sobre a porta externa do quarto de hotel, porta essa que o espectador nunca poderá abrir. Relegando a narração aos protagonistas entrevistados, o imaginário só reconstitui, ao ritmo do discurso dos atores, o desenrolar da paixão a um só tempo banal e tão insólita. E como os protagonistas se recusam a revelar a sua fantasia, o diretor vai brilhantemente impor a participação do espectador voyeur, limitando seu espaço ao espaço da fantasia, que não é de modo algum um avatar de um materialismo machista, mas que se torna a experiência pessoal e íntima de um casal que aprende a se amar. Daí a importância do título que, se anuncia e condiciona desde o começo o voyerismo do espectador e a sua participação no filme, só vai mais fortemente esfregar o olho perverso na porta fechada, impondo a reflexão e o questionamento do espectador. Do exterior vermelho (a cor da fantasia, que permanece secreta), o espectador só pode entrar uma vez no espaço fechado com contraste azul, onde ele nunca saberá a fantasia secreta que deseja descobrir. Ao contrário, ele só será o observador de uma cena de amor banal e íntima. Pois aqui, da fantasia sexual desinteressada e materialista, passamos para o amor incipiente. Eles não “trepam” mais: fazem amor A seguir, o realizador manda o espectador de volta para o exterior vermelho e inconsciente, tomado atrás desse plano da porta, interminável, em que a fantasia permanece secreta, em que a sexualidade volta a ser ato de paixão e união. Um lugar fechado, secreto e íntimo, onde o homem e a mulher conseguem unir as suas paixões e os seus instintos que não são mais reprimidos, mas expressos no segredo, que não são mais simples animalidades individualistas e “pornográficas”, mas uma experiência sensorial e sensual, secreta e maravilhosa. O quatro onde, pela última vez, eles poderão construir a Beleza, para além da amoralidade puritana. Uma última experiência da fantasia que exprime o amor que não ousa dizer seu nome, um amor que é vivido apaixonadamente, mas que permanece indizível, enquanto o homem e a mulher se isolam e se entregam, porém com muito medo de dizer “Eu te amo”, uma vez confrontados com “o medo do compromisso”, que é tônica do isolamento urbano atual. Pela sua direção sóbria, mas calculada, Frédéric Fonteyne se deleita em questionar as contradições e a despolarização dos tabus. Ele nos oferece um curto retrato de um objeto sexual machista sem nenhum significado e sem nenhuma sensualidade. Um mundo em que o sexo não é tabu, mas em que o amor, sim, se torna tabu. Porém, sem jamais moralizar o sexo ou o amor, o cineasta consegue reunir os dois pólos numa harmonia que nunca se deu antes (pois o mundo moderno recusa o amor e o mundo judaico-cristão recusa a sexualidade), destruindo a reificação da fantasia para pô-la na esfera secreta, íntima, pessoal e privada. Um objeto indizível e misterioso, um objeto de pura beleza em que o desejo sensual e amoroso entram em simbiose e em que o espectador voyeur, relegado à sua fome “carnal”, consegue encontrar com sobriedade a essência do amor e da sua expressão física.



sexta-feira, 2 de maio de 2014

TRÊS CANÇÕES MORTAS III



TRÊS CANÇÕES MORTAS

III

Amas-me? É algo sonhado,
Não por amor...
Um nada... O amor realizado
É só dor.

Faz de mim o teu amante,
Não quem eu sou.
O dia, se lindo o sonhou,
É radiante.

Seja eu triste ou feio – é o negror...
E essa sombria
Estada, é para que o dia
Te dê frescor.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Traduzido do original francês por Renata Cordeiro