sábado, 28 de junho de 2014

O AUTOR PROPÕE DISCORRER SOBRE OS AFETOS DE AMOR



O AUTOR PROPÕE DISCORRER SOBRE OS AFETOS DE AMOR

Eu cantarei o amor tão docemente
o tanto que me furte às suas dores,
que o peito que jamais sentiu amores
comece a confessar que amores sente.

Verá que não há dita permanente
sob todos os céus tão superiores,
e que essas ditas altas ou menores,
imitam sobre o chão sua corrente.

Verá que nem amando alguém alcança
firmeza, embora a tenha no tormento
de louvar um marfim com a beleza.

Porque se todo amor é esperança,
e a esperança é vínculo do vento
quem pode amar seguro com firmeza?

GABRIEL BOCÁNGEL (1603-1658)
Tradução de Renata Cordeiro

quarta-feira, 25 de junho de 2014

EMBRIAGA-TE



EMBRIAGA-TE

"Devemos andar sempre bêbados. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar. Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."

CHARLES BAUDELAIRE

sexta-feira, 20 de junho de 2014

MADRUGADA PAULISTANA




















MADRUGADA PAULISTANA



A noite desceu em bruma densa

cobrindo tudo com sua cortina de organdi


tragando espigões e até a torre da Paulista


já que não pousam aviões nas altas horas


se o próprio aeroporto desapareceu...



Por onde andará a lua e os guarda-noturnos

a guardar, soturnos, riquezas alheias


a salvo – até quando – de ágeis gatunos


quem sabe por aí andará


Sherlock Holmes


perseguindo figuras sinistras


pelos becos da Luz...



O fog paulistano

não abafou os últimos ruídos


na São Bento um caminhão de lixo


recolhe os vestígios do dia


a fauna noturna fuça em sacos plásticos


vultos enrolados em sujos cobertores


se arrastam perto da Catedral


ou fazem ponto nos bancos da Praça da Sé...



No Bexiga cuidadores de carros e boêmios

acendem fogueiras na calçada


e quando os últimos debandam dos teatros

restaurantes e cantinas


lá está a neblina a confundir a visão


a fundir vultos na escuridão


dopando o que se mexe sobre a Terra


a sugerir um canto quente sob um teto.


As damas da noite estragam ainda os saltos

do sapato no pedregulho


e seguem noite adentro


aquecendo-se à base de impropérios


no breu da noite os semáforos


já não passam de vagos indicativos luminosos

para um trânsito que se esvai


mas não vai de todo


na cidade que não pode parar...



Um som metálico de latas derrubadas

sugere algum cão travesso ou faminto


e os miseráveis que não são de Victor Hugo


disputam os metros


debaixo de pontes e viadutos


estremecidos pelos caminhões de entrega


trapos dependurados agitam-se


nas minúsculas sacadas coladas ao Minhocão


milhões de pupilas cerram-se


comprimidas nos cortiços e favelas


fecham-se os últimos bares apagam-se as luzes


e só os olhos luminosos dos reclames de néon


cintilam na escuridão...

@ Renata Cordeiro

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A DAMA E O UNICÓRNIO


A DAMA E O UNICÓRNIO

“A Dama e o Unicórnio” é o título de um conjunto de peças tecidas, que formam uma tapeçaria, considerada uma obra-prima da arte medieval na Europa. Estima-se que as peças foram tecidas no final do século XV (por volta de 1490), na Flandres. Foram redescobertas em 1841 por Prosper Mérimée e Georges Sand no castelo de Boussac. Os que teceram as peças casaram todos os elementos com precisão, harmonia e sutileza, formando um conjunto esplêndido. Encontramos sempre as mesmas árvores frutíferas, e cada uma dá frutos de diferentes formas e cores. Os animais – além do leão e do unicórnio (este imaginário) – são comuns (coelhos, raposas, perdizes), mas também exóticos (panteras, leopardos) na Europa. Em todas as peças, as personagens e os animais principais estão numa “ilha” de um azul escuro que contrasta com o fundo vermelho ornado de flores (“mille-fleurs”). É a representação poética de um mundo imaginário que nos leva a sonhar. E sonhar é o que fazemos quando nos deparamos, de repente, com esta obra-prima, “A Dama e o Unicórnio”, numa meia penumbra, e ficamos encantados pela beleza de cada peça, questionando-nos sobre o seu significado profundo. Pessoalmente, sempre admirei a capacidade que o homem tem de produzir coisas tão magníficas. Hoje, “A Dama e o Unicórnio” faz parte do acervo permanente do Museu Nacional da Idade Média, em Paris.

***
AVISO
AS PEÇAS DEVEM SER VISTAS E LIDAS DE BAIXO PARA CIMA



“Para o meu exclusivo desejo”

Esta é a famosa e última peça. Ninguém sabe o seu significado real. O que é este “exclusivo desejo”? Nesta peça, vemos a dama pôr o colar num porta-jóias, o que poderia dizer que ela renuncia aos bens materiais, e, por conseguinte, a ser dominada pelos sentidos. Seria, portanto, a superação das paixões, o livre-arbítrio dos pensadores antigos. Mas esta peça, associada aos cinco sentidos das anteriores, poderia representar o sexto sentido, o sentido do coração, do entendimento.


Tato

Nesta peça, é a própria dama quem segura uma das bandeiras com os brasões, e, com a outra mão, acaricia o chifre do unicórnio. O chifre, no imaginário medieval, possuía muitas virtudes. Na verdade, é um chifre de narval. O próprio unicórnio é aqui representado com corpo de cavalo, cabeça de cabra e o famoso chifre de narval.


Olfato


Aqui, a dama tem nas mãos um colar de flores. À sua direita, há um macaquinho, que dá a chave da alegoria, pois cheira uma flor. O macaco está presente em todas as peças e é, muitíssimas vezes, simbólico.

Visão

A dama está sentada. O unicórnio, em posição submissa, pousa as patas nos joelhos dela, que lhe mostra o seu reflexo num espelho. O unicórnio sorri, demonstrando que é manso. O leão está ao lado esquerdo, segurando uma das bandeiras.


Audição

A dama toca um órgão (portátil). A criada está em pé do lado oposto, apoiando-se no instrumento. O leão e o unicórnio também ornam o centro da figura, mas nesta tapeçaria suas posições estão invertidas - de forma que eles ficam ao centro da composição, segurando as bandeiras com os brasões da família Le Viste. Os animais também ornamentam o topo de cada extremidade do órgão (coisa muito difícil de ver, dado o tamanho da reprodução).


Paladar


A dama pega um doce de um prato que a criada segura. Ambas estão circundadas pelo leão e pelo unicórnio, animal maravilhoso. Os dois animais seguram as bandeiras com os brasões da família Le Viste (originária de Lyon), que encomendou a tapeçaria. As árvores presentes nas peças são o carvalho, o pinheiro e a laranjeira.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

MEU UNICÓRNIO AZUL




MEU UNICÓRNIO AZUL

Silvio Rodriguez


Meu unicórnio azul ontem se perdeu
pastando o deixei, e desapareceu
por qualquer informação bem vou pagar
as flores que deixou não me quiseram falar.

Meu unicórnio azul ontem se perdeu
não sei me deixou, se de mim se desgarrou
e eu não tenho mais que um unicórnio azul
se alguém dele souber, rogo-lhe informação
cem mil ou um milhão eu pagarei
meu unicórnio azul ontem se perdeu
se foi.

Eu e o unicórnio azul fizemos amizade
um pouco com amor, um pouco com verdade
com seu corno de anil pescava uma canção
sabê-la partilhar era sua vocação.

Meu unicórnio azul ontem se perdeu
e pode parecer até uma obsessão
mas não tenho mais que um unicórnio azul
e mesmo que tivesse dois, só quero aquele.
Qualquer informação eu a pagarei
Meu unicórnio azul ontem se perdeu
se foi.

Tradução de Renata Cordeiro

domingo, 8 de junho de 2014

OLHOS CLAROS, SERENOS



OLHOS CLAROS, SERENOS

Olhos claros, serenos,
se de um tão doce olhar sois celebrados,
por quê, quando me olhais, olhais irados?
Se quanto mais piedosos
mais lindos pareceis a quem vos mira,
não me olheis assim com ira
senão parecereis menos formosos.
Ai, tormentos raivosos!
Olhos claros, serenos,
Se assim me olhais, olhai-me pelo menos.

GUTIERRE DE CETINA (1520-1557)
Tradução de Renata Cordeiro

quarta-feira, 4 de junho de 2014

PRAZER DE AMOR


PRAZER DE AMOR


Prazer de amor não dura mais que o instante,
Mal de amor dura até ao fim dos dias.

Tudo deixei por quem não merecia,
Pela Sílvia, que tem um outro amante...

Prazer de amor não dura mais que o instante,
Mal de amor dura até ao fim dos dias.

Enquanto correr a água assim constante
Para o rio que beira a pradaria,
Eu te amarei, a Sílvia repetia;
Corre a água, é outra a Sílvia, não obstante!

Prazer de amor não dura mais que o instante,
Mal de amor dura até ao fim dos dias.

JEAN-PIERRE CLARIS DE FLORIAN (1755-1794)
Tradução de Renata Cordeiro