quarta-feira, 30 de julho de 2014

BREVE EXPOSIÇÃO SOBRE A SAUDADE



BREVE EXPOSIÇÃO SOBRE A SAUDADE

É inexata a idéia que outras nações desconheçam esse sentimento. Ilusória é a afirmação... que o mesmo vocábulo Saudade... não seja sabido dos Bárbaros estrangeiros, não tenha equivalente em língua alguma na Galiza de além-Minho.
Com essas palavras, Carolina Michaëlis, a maior estudiosa da saudade portuguesa quer demonstrar as várias semelhanças da palavra em questão com vocábulos de outros idiomas, a saber:
1) do castelhano soledad soledades;
2) do asturiano senhardade, singularitate;
3) do galego morrinha, derivado popular de morrer;
4) do catalão anoyoransa, anyorament (de nojo = tédio); aqui o verbo é usado sempre com o significado de  desiderare. Na linguagem arcaica, dizia-se enyorar, enyoransa, enyorament. Além dessas formas, havia entreyorar, cuja etimologia é ignorare, o que corresponde ao castelhano entraña, português entranhar-se, francês entraille.
5) Plena concordância há, porém, entre saudade e a Sehnsucht dos alemães. Mas, em geral, a Sehnsucht alemã tem caráter metafísico.
6) Também os vocábulos suecos längtan, este equivalendo a desejo, saudade, almejo, e längta, equivalendo a almejar, ter saudade.
Para terminar, em português, saudade pode também significar saúde, salvação, saudação e lembranças: “Lembranças à patroa” é o mesmo que dizer “Saudades à patroa”.

@ Renata Cordeiro

sábado, 26 de julho de 2014

A ELE



A ELE


Era a idade lisonjeira
na qual é um sonho a vida:
era a aurora feiticeira
da juventude florida,
na satisfação primeira.

Quando sem rumo vagava
no campo bem silenciosa
e, escutando, me alegrava
com a rola que entoava
sua queixa lastimosa.

Melancólico fulgor
a branca lua esparzia
e a aura ligeira mexia
com sopro murmurador
a tenra flor que se abria.

E eu me alegrava! O rocio,
celeste lamentação,
o bosque denso e sombrio,
a tranquila paz do chão,
o manso correr do rio,

e da luz da lua o alvor
e a aura que então murmurava
e ia acariciando a flor,
e o pássaro que cantava...
Tudo falava de amor!

E trêmula, palpitante,
no delírio extasiada,
tive uma visão brilhante,
como o ar aromatizada,
como as nuvens flutuante.

Ante mim resplandecia
qual um astro em seu fulgor,
e com louca fantasia
ao fantasma sedutor
tributada idolatria.

 Pensei ouvir seu acento
no canto daquelas aves;
auras eram seu alento
cheias de aromas suaves,
sua casa o firmamento.

Que ser estranho era aquele?
Anjo ou homem, qual então?
Deus, Lusbel, o nome dele?...
Como se chama a visão?
Ah! Chama-se...! Apenas Ele! [...]


GERTRUDIS GÓMEZ DE AVELLANEDA (1814-1873)
Tradução de Renata Cordeiro

quarta-feira, 23 de julho de 2014

FÚRIA DE TITÃS, 2010


FÚRIA DE TITÃS, 2010


Elenco: Sam Worthington, Pete Postlethwaite, Mads Mikkelsen, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Ralph Fiennes, Liam Nieeson
Direção: Louis Leterrier


Recém-nascido semideus, adotado por um pescador, Perseu, já adulto, vê a sua família dizimada por Hades, enquanto castiga alguns mortais que esfacelam a estátua de Zeus.  Em busca de justiça, Perseu vai se lançar numa corrida contra o Tempo para salvar uma cidade, uma princesa e, eventualmente, fazer a festa de Hades. 
Datando do começo dos anos 80, Fúria de Titãs I, de Desmond Davis é, mais que  tudo, a última colaboração entre o produtor Charles Schneer e o lendário técnico de efeitos especiais Ray Harryhausen. Cerca de trinta anos depois, uma nova versão do filme é feita em grande escala técnica, comercial e internacional. No que respeita aos efeitos especiais é o que de mais avançado se tinha e as projeções são em 3D, técnica cada vez mais apreciada pelos espectadores, haja vista o sucesso de Avatar. É difícil, embora não de todo impossível, perceber a importância que se dá ao humano no filme, mesmo que haja ajuda divina, que também se revela humana.  Há sequências de verdadeira profundidade, perceptíveis sem as lentes 3D.  No entanto, é curioso saber que as sequências de ação não foram pensadas na origem para ser vistas em terceira dimensão. Por isso, os confrontos com espada entre Perseu e os adversários padecem de um caos de imagens que nenhum par de óculos “fornecidos” na bilheteria suporta bem. Este texto poderia terminar aqui, amaldiçoando o filme, mas encarado de um outro ponto de vista, a película consegue insuflar-nos o humano por meio desta aventura mitológica. Os deuses, assim como as gentes se humanizam.  As cenas entre Io e Perseu, e entre este e Zeus são comoventes. Olhos são para ver. Mais que isso: enxergar.



@ Renata Cordeiro

quinta-feira, 17 de julho de 2014

NEM SEMPRE O QUE SE VÊ É O QUE PARECE SER


1975




Por trás de um bonito rosto posso encontrar a bela natureza divina que existe em mim...



Por trás de um rosto desconhecido, pode estar a minha alma gêmea...



Na alma de uma senhora de cabelos grisalhos, pode estar a fonte da juventude...


Na mente de um senhor velho e cansado, posso encontrar o caminho para a sabedoria...


Por trás do olhar fixo no horizonte, posso encontrar a mãe divina que alimenta a minha alma...


QUANDO JULGAMOS UMA PESSOA, PERDEMOS A OPORTUNIDADE DE AMÁ-LA.
A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

sábado, 12 de julho de 2014

ROMEU E JULIETA – TRÊS VERSÕES: 1936, 1968, 1996





ROMEU E JULIETA – TRÊS VERSÕES: 1936, 1968, 1996


Os filhos de duas famílias inimigas se apaixonam e se casam secretamente. É preciso realmente fazer a sinopse de Romeu e Julieta?

A peça Romeu e Julieta é sobre dois amantes bastante jovens, que não compreendem o mundo, e um grande número de pessoas mais velhas com quem os jovens podem manter restrito contato (e que também não compreendem o mundo). Julieta tem treze anos, ao passo que a idade de Romeu não é dita, mas com certeza ele está na adolescência. Os sentimentos de ambos são verdadeiros, mas eles simplesmente não sabem o que fazer com esses sentimentos. Por que não fugir em vez de tentar um falso suicídio? Porque eles ainda não abandonaram a infância. Por que o frei Lourenço lhes dá aquele horrível conselho? Porque ele, com a convicção de que agir lenta e calmamente é o melhor caminho, esqueceu-se completamente da juventude. Não se crê em ninguém com cerca de trinta anos? A peça sugere que não se deve confiar em ninguém com mais de trinta anos.

1936

A adaptação da peça para o cinema de 1936, época de uma geração do entre-guerras, não faria sentido algum se os papéis-título não fossem dados à esposa do não tão jovem produtor Irving Talberg, Norma Shearer, de 34 anos, como Julieta, e Leslie Howard como Romeu, de 43 anos.
É engraçado ver esses atores de meia idade representarem como colegiais. Mas ainda mais ridículo é o amigo de Romeu, Mercúrio, interpretado por John Barrymore.
Quando Mercúrio (na peça) desafia Teobaldo, é como um garoto cujo orgulho foi ferido. O filme rasteja e tem todas as insinuações sexuais possíveis, mas essas e outras não interessam, pois o elenco basta para afundar o filme.
O filme interessa apenas como uma excentricidade.

1968

Já o filme de Zeffirelli, de 1968, é bem mais fiel à peça. O diretor escolhe um Romeu e uma Julieta bem novos. Olívia Hussey tem 15 anos e embora haja uma diferença entre 13 e 15 anos, a coisa dá certo. Zeffirelli põe a paixão da peça no filme. O romance é crível, excitante e de partir o coração.
Infelizmente, é lento. Zeffirelli cai na armadilha de respeitar as palavras a ponto de abandonar o ritmo da história. Assim como torna a história longa, corta importantes diálogos e cenas. Isso elimina as piadas, o que lamentável. Mas a paixão é o bastante para tornar esse filme digno de ver.

1996

Baz Luhrmann modernizou a peça para o seu Romeu + Julieta de 1996. A cidade moderna foi bem escolhida, não o seria se a peça não tivesse sido filmada em outro lugar. Os atores são um pouquinho velhos (Claire Danes tem 17 anos e parece mais velha). Para entreter os espectadores, diretor e atores – Leonardo di Caprio e Claire Danes – fazem o seu melhor a partir da história com explosões e pás de helicópteros, mas tudo isso poderia ser perdoado. Estaria tudo bem se o público conhecesse a peça, mas seria bom se os atores dessem algum sinal de que também a conhecem. Exceto Pete Postlethwaite (Frei Lourenço), ninguém mais parece saber o que as palavras que eles proferem querem dizer.
Só quem não conhece a história, a não ser por essa versão, talvez possa entender o filme.
A quem for ver o filme, sugerimos que leia a peça antes para poder preencher as lacunas.

terça-feira, 8 de julho de 2014

ELA ERA O LÍRIO DESSE VALE...

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ELA ERA O LÍRIO DESSE VALE...

Dali se avista um vale que começa em Montbazon, acaba no Loire, e parece saltitar debaixo dos castelos postos nessas colinas duplas; uma magnífica taça de esmeralda no fundo da qual o Indre se revolve por movimentos de serpente. Na minha contemplação, fui tomado por um espanto voluptuoso que o tédio das charnecas ou o cansaço do caminho preparara. – Se essa mulher, a flor do seu sexo, mora em algum lugar do mundo, tal lugar é aqui.
Quando assim pensava, estava apoiado numa nogueira a cuja sombra, a partir daquele dia, descanso todas as vezes que volto ao meu querido vale. Debaixo dessa árvore, confidente dos meus pensamentos, interrogo-me sobre as mudanças por que passei durante o tempo transcorrido desde o último dia, aquele em que parti. Ela permanecia ali, o meu coração não me enganava: o primeiro castelo que vi no declive de uma charneca era a sua morada. Quando me sentei ao pé da minha nogueira, o sol do meio-dia fazia com que cintilassem as ardósias do seu teto e os vidros das suas janelas. O seu vestido de percal produzia o ponto branco que eu observei nas suas vinhas debaixo de um alpercheiro. Ela era, como vocês já sabem, sem nada saberem ainda, o lírio desse vale, impregnado do perfume das suas virtudes. O amor infinito, sem outro alimento a não ser um objeto apenas vislumbrado de que a minha alma estava repleta, eu o julgava expresso por essa comprida fita de água que jorra ao sol entre duas margens verdes, por essas fileiras de choupos que enfeitam com as suas rendas móveis esse vale de amor, por esses bosques de carvalhos que penetram, entre as vinhas, nos outeiros que o rio margeia sempre de maneira diferente, e por esses horizontes encobertos que desaparecem.

HONORÉ DE BALZAC (1799-1850)

Tradução de Renata Cordeiro

sexta-feira, 4 de julho de 2014

VI-A, DEUSA...



VI-A, DEUSA,...

Vi-a, deusa, e prostrei-me, adorando-a,
e para voltar o ídolo benigno,
a prosa esqueço e vou dela falando
no linguajar dos deuses muito digno.
Desde então foi meu signo
pintar nessas canções
tão doces perfeições;
e como a sua beleza me humilha!
que é perto dela a minha fala parca
Fio de água que no descampado brilha,
e o vasto mar que quase o mundo abarca!

JUAN BAUTISTA ARRIAZA (1770-1837)
Tradução de Renata Cordeiro