terça-feira, 16 de setembro de 2014

O AMOR NA SAVANA



O AMOR NA SAVANA


Atala me fez um casaco com a segunda casca do freixo, já que eu estava quase nu. Bordou-me mocassins de pele de rato algalioso, com pêlo de porco-espinho. E eu, por minha vez, cuidei dos seus trajes. Ora lhe punha na cabeça uma coroa de malvas azuis que encontrávamos no caminho, nos cemitérios indígenas abandonados; ora lhe fazia colares com grãos vermelhos de azálea; então, pegava-me sorrindo ao contemplar a sua maravilhosa beleza.
Quando encontrávamos um rio, nós o transpúnhamos de jangada ou a nado. Atala apoiava uma das mãos no meu ombro; e, como dois cisnes viajantes, atravessávamos as ondas solitárias.
Com freqüência, em virtude do calor, procurávamos abrigo nos musgos dos cedros. Quase todas as árvores da Flórida, em particular o cedro e o carvalho-verde, são cobertas de musgos brancos que caem dos seus galhos até o chão. Quando, à noite, ao luar, se avista, na nudez da savana, um carvalho-verde isolado coberto dessa cortina, parece que se vê um fantasma arrastando atrás de si os seus longos véus. A cena não é menos pitoresca em plena luz do dia; pois uma multidão de borboletas, de mosquitos brilhantes, de colibris, de periquitos verdes, vem grudar-se nesses musgos, que então causam o efeito de uma tapeçaria de lã branca, em que o operário europeu bordaria insetos e pássaros reluzentes.
Era nessas aprazíveis hospedarias, preparadas pelo Grande Espírito, que descansávamos à sombra. Quando os ventos desciam do céu para balançar aquele grande cedro, quando o castelo aéreo construído nos seus galhos flutuava com os pássaros e com os viajantes adormecidos à sua sombra, quando mil suspiros saíam dos corredores e das abóbadas do edifício móvel, nunca as maravilhas do Velho Mundo chegavam aos pés desse monumento do deserto.
Toda noite, fazíamos uma grande fogueira, e construíamos a cabana da viagem com uma casca erguida sobre quatro estacas. Quando eu matava um peru selvagem, um pombo-torcaz, um faisão da floresta, nós os levantávamos, e os púnhamos como que abraçados ao carvalho, na ponta de uma vara fincada no chão, e deixávamos ao vento o cuidado de girar a presa do caçador. Comíamos musgos chamados tripas das rochas, cascas açucaradas de bétula, e maçãs de maio, que têm gosto de pêssego e framboesa.  A nogueira negra, o bordo, o sumagre forneciam o vinho à nossa mesa. Às vezes, eu ia procurar, entre os caniços, uma planta cuja flor, alongada num funil, continha um copo do mais puro orvalho. Abençoávamos a Providência, que, no frágil caule de uma flor, pusera aquela fonte límpida no meio dos brejos corrompidos, que pusera a esperança no fundo dos corações ulcerados pela tristeza, que fizera jorrar a virtude do âmago das misérias da vida!
Lamentavelmente, logo descobri que me havia enganado sobre a calma aparente de Atala. À medida que avançávamos, ela ia ficando triste. Toda hora estremecia sem causa, e de repente virava a cabeça. Eu a surpreendia pousando sobre mim um olhar apaixonado, que, em seguida, ela dirigia ao céu com profunda melancolia. O que eu temia, principalmente, era um segredo, um pensamento no fundo da sua alma, que eu adivinhava nos seus olhos. Sempre a atrair-me e a rejeitar-me, reavivando e destruindo as minhas esperanças, quando eu acreditava ter desbravado um pouco de caminho no seu coração, eu me via no mesmo ponto.
                                                                                      (ATALA)
FRANÇOIS RENÉ, VISCONDE DE CHATEAUBRIAND (1768-1848)
Tradução de Renata Cordeiro