segunda-feira, 25 de abril de 2016

UM SEGREDO DE AMOR



UM SEGREDO DE AMOR


"Minha esposa ficou doente. 
Nosso relacionamento estava a ponto de acabar. A beleza dela estava deixando-a. Ela tinha bolsas sob os olhos, cabelos desgrenhados. Ela parou de cuidar de si mesma. Recusou-se a fazer filmes e rejeitou cada papel. Perdi a esperança e pensei que iríamos nos divorciar em breve... 
Foi então que eu decidi agir. Afinal, eu tenho a mulher mais bonita do planeta. Ela é a mulher ideal para mais da metade dos homens e mulheres da Terra, e eu o único que tinha permissão para dormir ao seu lado e abraçá-la. Comecei a mimá-la com flores, beijos e muitos elogios. Surpreendia-a e tentava agradá-la em todos os momentos. Enchi-a de presentes e comecei a viver apenas para ela. Só falava em público a seu respeito e relacionava todos os assuntos a ela, de alguma forma. Elogiei-a a sós e em frente a todos os nossos amigos.
Vocês podem não acreditar, mas ela começou a renascer, a florescer… Tornou-se ainda melhor do que era antes. Ganhou peso, parou de ficar nervosa e me ama ainda mais do que antes. Eu nem sabia que ela podia amar tão intensamente.
E então eu percebi uma coisa: 'A mulher é o reflexo de seu homem'.
Brad Pitt".

sábado, 23 de abril de 2016

QUATRO SÉCULOS SEM MIGUEL DE CERVANTES, A CIGANINHA



A CIGANINHA


Quando Preciosa o pandeirinho toca


e fere o doce som os ares vãos,


são pérolas que espalha com as mãos;

e são flores que saem dessa boca.


Suspensa a alma, e a cordura muito louca,

seus doces atos mais que humanos são

que por limpos, honestos e mui sãos,

a sua fama alcança o céu e o toca.


Pendentes no menor dos seus cabelos

mil almas leva, e em suas plantas tem

amor algumas flechas dominadas.


Cega e alumbra com sóis deveras belos,

seu império amor por elas mantém

e outras grandezas mais são suspeitadas.  


MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616)

Tradução de Renata Cordeiro

quinta-feira, 21 de abril de 2016

SERES VIRTUAIS



SERES VIRTUAIS


Pedaços que se encaixam

Sorrisos que se encontram

Vontades que se desejam,

Toques que já se sentem.

O silêncio que se rompe no teclar,

As vidas que se encontram a cada pensamento

O sonhar que se agita a cada segundo

Faz-nos crescer em sentimentos.

Os desejos que se cruzam,

Rompem as feridas deixadas pelo tempo.

Perdidos em delírio o vôo é lançado,

E o pouso se dará

Somente no horizonte mais brilhante

Aonde chegaremos a qualquer hora,

Sem sequer sairmos do lugar.

@ Renata Cordeiro




quinta-feira, 14 de abril de 2016

AFINIDADE


AFINIDADE


Não é o mais brilhante,
Mais é o mais sutil,
 Delicado e penetrante dos sentimentos.
Não importa o tempo, a ausência,
Os adiantamentos, a distância, as impossibilidades.
Quando há afinidade,
Qualquer reencontro retoma a relação,
O diálogo, a conversa,
O afeto, no exato ponto
De onde foi interrompido.
Afinidade é não haver
Tempo mediante a vida.
É a vitória do adivinhado sobre o real,
Do subjetivo sobre o objetivo,
Do permanente sobre o passageiro,
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro,
Mas quando ela existe,
Não precisa de códigos
Verbais para se manifestar.
Ela existia antes do conhecimento,
Irradia durante e permanece depois que as
Pessoas deixam de estar juntas.
Afinidade é ficar longe,
Pensando parecido a
Respeito dos mesmos fatos que
Impressionam, comovem, sensibilizam.
Afinidade é receber o que vem
De dentro com uma aceitação
Anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com...
Nem sentir contra, sem sentir para...
Sentir com e não ter necessidade de
Explicação do que está sentindo.
É olhar e perceber.
Afinidade é um sentimento singular,
Discreto e independente.
Pode existir a quilômetros de distância,
Mas é adivinhado na maneira de falar,
De escrever,
De andar,
De respirar...
Afinidade é retomar a relação
No tempo em que parou.
Porque ele [tempo] e
Ela [separação] nunca existiu.
Foi apenas a oportunidade dada/tirada
Pelo tempo para que a maturação
Pudesse ocorrer, e que cada
Pessoa pudesse ser cada vez mais.

Artur da Távola

domingo, 10 de abril de 2016

E POR FALAR EM AMOR...



E POR FALAR EM AMOR...


"Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca."


Arnaldo Jabor

terça-feira, 5 de abril de 2016

PARA UM SER *BE HAPPY*


PARA UM SER *BE HAPPY*

Precisamos de tempo para fazer também o que nos apetece. Tempo para namorar, tempo para rir com as baboseiras dos amigos, tempo para dançar descalços na praia, tempo para mergulhar nas ondas com os filhos, ou sós, e rir da cara de besta que fazemos quando nos pomos de pé, onde quer que seja. Existe a pessoa perfeita? Não! Mas a maior parte de nós passa o tempo correndo atrás dessa perfeição, ao passo que o desafio é sermos autênticos. E aceitar para ter ao nosso lado alguém que nos aceite assim. Como somos, perfeitos, ou não.



2010 May, Happy.

trad. and adap. by Renata*


terça-feira, 29 de março de 2016

O AMOR É MESMO O PARAÍSO!

O AMOR É MESMO O PARAÍSO!

O amor não é um lugar desconhecido. Não é de todo um lugar comum. O amor é um lugar familiar. É um bom lugar. Um lugar onde é sempre gostoso voltar. Mesmo que já tenhamos sido felizes lá. Mesmo que tenhamos deixado de ser. O amor é um lugar onde cabe mais um. Onde cabem todos. Os amores. Onde às vezes não cabe mais ninguém. Um lugar onde é gostoso dançar, onde é gostoso tirar a roupa, o sapato, onde é gostoso cantar bem alto, bem baixo, sei lá. O amor é um lugar onde nos sentimos bem. Conosco e com os outros. Um lugar onde nos damos. Onde sofremos. Sozinhos. Acompanhados. Um lugar onde rimos, onde os olhos brilham, onde nos inflamamos. O amor é um lugar quente. Onde choramos. Onde nos faltam as forças e nos encorajamos. Onde tudo parece interminável. Inquestionável. Irrepetitível. Onde tudo começa. Onde tudo faz sentido. O amor é um lugar inconfundível. Cheira a amor. Nesse lugar. É o lugar onde fazemos amor. E onde só o amor entra. Um lugar pouco iluminado. Onde os cabelos se desalinham e se borra a maquiagem. Onde é bom abrir as janelas. Deixar entrar o sol. Um lugar que conhecemos de olhos fechados. Que tateamos. Onde nos orientamos. Onde nos perdemos. Um lugar onde chegamos e nos sentimos em casa. Onde nos servem o prato favorito, onde não nos perguntam o que vamos beber. Um lugar onde se misturam todas as cores, perfumes, sabores. Onde nos sentimos. Ora seguros. Ora desamparados. Um lugar onde se dão palavras, gestos, gozos. Onde se cruzam olhares. Um lugar onde sorrimos. Onde tudo parece acontecer sempre pela primeira vez. E pela última. O lugar onde voltamos, onde voltaremos sempre a nos encontrar. O amor é mesmo o Paraíso!
by Renata Cordeiro


Открытка Любовь



sábado, 12 de março de 2016

RENOVAR, POR MARTA VINHAIS, SEREIA, POR RENATA CORDEIRO, SEREIAS, POR RENATA CORDEIRO, A SEREIA, DO ROMANCEIRO SEFARDITA, TRADUÇÃO DE RENATA CORDEIRO




RENOVAR
Marta Vinhais

Sereia eu fui

Sereia não posso voltar a ser

Na gruta que enfeitei com conchas e búzios já não me escondo…

E o som do mar

No meu coração vive

Já não vagueio nas noites de lua cheia pelo fundo do mar

varrendo a areia à procura do arco-íris que,

aqui à superfície me encanta e seduz,

faz com que a lua chore, surpreendendo,

as estrelas e os outros planetas

cantando baixinho velhas melodias,

numa voz potente e quente.

E, de novo o horizonte se alarga




SEREIA
Renata Cordeiro

No oceano a sereia dança

Ao ritmo do seu bailado

Ao som do mar azulado

A sereia, mulher, canta

Sempre à espera do amado...



SEREIAS
RENATA CORDEIRO


As sereias são as mulheres-pássaros segundo as fontes gregas, e as mulheres-peixes segundo as fontes nórdicas, que simbolizam principalmente os perigos do oceano e a morte no mar. Narrações posteriores tornaram-nas mulheres jovens vivendo no mar, sem a conformação de peixe (é o caso da "Siren" inglesa, diferente da "Mermaid", que tem cauda de peixe), como as Mulheres do mar das lendas bretãs, que são uma espécie de fadas marinhas.
Para a mitologia grega, elas viviam numa ilha do Ponnant, perto da ilha da feiticeira Circe; mas o cadáver de uma delas, Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à cidade que hoje se chama Nápoles (antes, Partênope).
Na Antigüidade, as sereias eram também invocadas no momento da morte, por isso, muitas estátuas que as representavam eram encontradas nos sepulcros.
Deve-se acrescentar que se acreditavam realmente na existência das sereias, sendo conhecidas várias histórias de sereias vivas.
A obra literária mais antiga que existe sobre elas é a 
Odisséia de Homero, em que o herói, Ulisses, alertado pela feiticeira Circe, não cai prisioneiro de seus encantos, ao passar próximo da ilha onde elas habitam, tapando os ouvidos dos marinheiros e fazendo-se atar no mastro do navio. Desde então, as sereias passaram a ser um símbolo mitológico das artes da sedução e da atração feminina.
Segundo essas crenças, as sereias não só seduzem os homens para dar-lhes a morte, mas a sua aparição também era anúncio de tempestades e desastres. O historiador romano Luciano, do século II d. C., já se referia a uma extraordinária figura pisciforme como deidades oceânicas.
Segundo algumas crônicas, no ano 558, uns pescadores de Belfast Lough (Irlanda do Norte), ouviram o canto de uma sereia e foram pescá-la com suas redes.
Conseguiram resgatar uma sereia que se chamava Liban, filha de Eochaidh, na praia de Ollarbha, na rede de Beon, filho de Inli. Puseram-na em um aquário, do mesmo modo que um peixe, e ali ela permaneceu por 300 anos. Durante esse tempo, desejou ardentemente sua liberdade. Certos monges piedosos resolveram libertá-la, mas antes a batizaram segundo o rito cristão, dando-lhe o nome de Murgen, que significa "nascida no mar". Depois desejou a morte para salvar sua alma. Desde do dia em que morreu ficou conhecida como a Santa Murgen, aparecendo com essa denominação em certos almanaques antigos e no santoral irlandês, sendo atribuídos a ela vários milagres. Quem já tinha ouvido falar numa sereia santa? Pois não é freqüente essa simbiose entre o paganismo e o cristianismo.
Em algumas descrições celtas antigas, as sereias tinham um tamanho monstruoso, apresentando quase dezoito metros de altura. Essas medições foram possíveis porque elas penetravam pelos rios e podiam ser encontradas em lagos de água doce.

SEREIA ASSASSINA

Um exemplo típico de sereia selvagem é a que aparece no conto 
O Senhor de Lorntie",que Robert Chambers narra em Popular Rhymes of Scotland:


"O jovem Senhor de Lorntie, em Forfarshire, regressava certo dia tarde da caça, acompanhado somente por um criado e dois cães galgos, quando, ao passar junto de um lago solitário situado a cerca de três milhas ao sul de Lorntie, e que naquela época estava completamente rodeado de bosque, ouviu os gritos de uma mulher que parecia estar afogando-se.
Sendo de caráter intrépido, o jovem lorde pulou do cavalo e se dirigiu para a margem do lago, e ali viu uma bela mulher que lutava com a água e parecia estar afogando-se.



-"Socorro, socorro, Lorntie!", exclamou.
"Socorro, Lorntie, socorro, Lor...."




E as águas, penetrando em sua garganta, pareceram afogar os últimos sons de sua voz. O Lorde, incapaz de resistir a um impulso de humanidade, se lançou ao lago, e quase ia agarrar os loiros cabelos da moça, que flutuavam como madeixas de ouro sobre a água, quando seu criado o segurou por trás e o obrigou a sair do lago.
O servo, mais perspicaz que seu amo, se deu conta que aquela era um espírito aquático.
"Espera, Lorntie, espera um instante!", exclamou o fiel servo, "aquela dama não era outra, Deus nos proteja! que uma sereia!"
Lorntie, imediatamente reconheceu que ele falava a verdade, e quando montava no cavalo, se viu confirmada, pois a sereia, tirando meio corpo para fora da água, exclamou um voz de frustração e ferocidade diabólica:



"Lorntie, Lorntie, se não fosse por teu criado, teria seria sido uma presa muito fácil!".


SEREIA CURADORA

Uma bonita história de uma sereia que dá conselhos médicos é a que cita Chambers em 
Nithsdale and Galloway Song de Cromek:


Um homem chorava pela namorada, uma jovem encantadora que a tísica havia levado à margem da tumba.
Com tom de doçura vivificante, aproximou-se dele uma boa sereia e cantou:
"Deixarias morrer a bonita May em tuas mãos, e a artemisia florescer nos campos?"
O jovem arrancou e espremeu as corolas e deu o suco à bela namorada, que se levantou e agradeceu à sereia por lhe haver dado de volta a saúde."



Alguns autores têm uma visão favorável das sereias. Renfrewshire confirma esse pensamento através de um conto sobre uma sereia que emergiu da água enquanto passava o funeral de uma jovem, e disse queixosamente:



Se bebessem urtigas em março
e comessem artemisa em maio,
não iriam para tumba
tantas elegantes donzelas.



A artemísia era muito usada para a tísica. As sereias tinham grandes conhecimentos sobre ervas, além de poderes proféticos.

LUGARES ONDE APARECERAM AS SEREIAS

Cantábrico, que banha a costa norte da Península Ibérica, já teve fama de ser um mar muito povoado de sereias. No ano 1147, uma grande expedição marítima levou um exército cristão do norte da Europa à Terra Santa, no começo da segunda cruzada. Por uma carta que se conserva na Biblioteca do Colégio de Cristo da Universidade de Cambridge, escrita pelo cruzado Osbone, sabemos que a frota saiu do porto de Dartmouth, ao sudoeste da Inglaterra 
na sexta-feira anterior à Ascensão de Cristo, e que, várias jornadas depois, foi dispersada por um forte temporal um dia antes que pudessem alcançar o porto de Mala-Rupis (Gijón).
O relato de Osbone, traduzido por Jesus Evaristo Casariego, diz assim:
A noite que se seguiu (ao temporal), apavorou todos os nautas, por mais serenos que fossem. Entre todos os perigos, escutamos os horríveis alaridos das sereias, que primeiro eram como gritos de dor e logo de riso e gargalhadas, tal como se de seus castelos nos insultassem.

Na Idade Média, na Inglaterra, elas se chamavam 
Mermaids, ou filhas do mar, que se diferenciavam das Siren, que eram as sereias clássicas, ou seja, as mulheres-pássaros. A crença na real existência das sereias se manteve até muito depois do início da Idade Média, apesar da crescente expansão do cristianismo que condenava essas superstições.
Em 1403, perto de Edam, nos Países Baixos, uma sereia passou por uma brecha em um dique e dois jovens a encontraram atolada no barro do canal, coberta de musgo e plantas verdes. Habitou em Haarlem até o dia de sua morte, depois de 17 anos.
- Ninguém a compreendia", dizia Borges, "porém lhe ensinaram a fiar e venerava como por instinto a cruz, razão pela qual foi enterrada em um cemitério cristão.

Em 1658, foram vistas várias sereias na costa da Escócia, perto da desembocadura do rio Dee. A visão teve tal ressonância que o 
Aberdeen Almanac, trasformou o local em ponto turístico, prometendo aos visitantes a presença de um grupo de preciosas sereias, criaturas conhecidas pela sua beleza incomparável. Comprova-se assim, que a técnica da propaganda enganosa não foi um invento do século XX.
No século XVIII um periódico inglês menciona como verdadeira a aparição de uma
Mermaid nas costas da Grã Bretanha. Em 1728, o governador das ilhas Moluscas (atual Indonésia), Minher Van Der Stell, contou que havia visto um monstro semelhante a uma sereia, junto à costa de Borneo, na província de Amboina,medindo aproximadamente 1,50 m. Permaneceu viva em terra, dentro de uma cuba cheia de água quatro dias e sete horas, emitindo de vez em quando um sibilo débil, como uma ratazana.

SEREIAS NA ESPANHA

Na Espanha, segundo Jesus Callego, os relatos de sobre as sereias sobreviveram no tempo de boca em boca, de geração para geração e estão ligadas às idéias fundamentais: por um lado, seu canto melodioso, que constitui um perigo a evitar pelos seres humanos, já advertido na 
Odisséia; e, por outro, em todas as lendas que transmitem a idéia de maldição de uma mãe humana faz sobre sua filha, convertendo-se essa em sereia, passando dessa forma, a formar parte do mundo das fadas.Na Espanha são encontradas referências a sereias assassinas desde o século XVI, em que os autores falam delas nas suas obras, recorrendo ao sentir popular que sobre as mesmas existia tanto em sua época como muito antes.
Um deles é Juan Pérez de Moya, que faz eco, na 
Filosofia Secreta, de uma das qualidades das sereias que devia ser tópica inclusive no século XVI, quando escreve:Fingem cantar tão docemente, que os marinheiros as ouvem, admirados da melodia, adormecem e, não olhando por si, as sereias, quando os sentem adormecidos, para depois comer suas carnes.



Já Antonio de Torquemada, em seu Jardim de Flores Curiosas (1570), recolhe outro aspecto tipicamente conhecido das sereias, aceitando a possibilidade da sua existência, mas não seus comportamentos:É comum falar e tratar dessas sereias, dizendo que, do meio do corpo para cima têm forma de mulher, que dali para baixo têm de peixe; representadas com um pente na mão e um espelho na outra, e dizem que cantam com tanta doçura que adormecem os navegantes e assim entram nos seus navios e matam todos que neles estão adormecidos (...) e embora seja assim, que haja no mar esse gênero de peixe, eu tenho por fábula a doçura de seu canto e tudo a mais que se fala acerca delas.
No que tange à sua organização social, elas têm uma rainha, que é a mais bela de todas e que se distingue por levar incrustado na cauda um anel de pedras preciosas que tem de retirar ao chegar à praia e voltar a pô-lo ao regressar ao mar, tal como afirma uma lenda de Begur, na Costa Brava.

SEREIAS MULTIFORMES

As sereias, dentro de suas múltiplas habilidades, podem mudar de forma. A imagem mais comum na Antigüidade Clássica, foi a da mulher-ave, conhecida também como Hárpia, e só na época medieval foi transformada em mulher-peixe.
A sereia-hárpia, cuja imagem apresenta um rosto de mulher e o resto de uma ave rapina, personifica as tempestades e a morte, sendo encarregada de raptar os seres humanos para logo oferecê-los ao deus do inferno. Esse ser aparece descrito por Homero e sobrevive na época de São Isidoro, mantendo-se inclusive até o século XII nas representações das igrejas romanas, porém já não são vistas na arte gótica.
Há também alguns relatos de que uma sereia pode desintegrar a sua cauda de peixe e transformar-se em mulher de aspecto completamente humano. Para Nancy Arrowsmith, quando elas viajam pelo mar, só podem tomar a forma de mulher-peixe ou golfinho e se o fazem pelo ar, aparecem como gaivotas ou águias (essa é uma qualidade mais própria das nereidas).
Medem, em geral, um metro e meio. São muito belas e adoram jóias e pedras preciosas. Como o resto das fadas, dormem durante todo o dia e somente é possível vê-las ao amanhecer ou no pôr-do-sol.
As sereias se encontram em todo o litoral do Mediterrâneo espanhol, mas também no Atlântico (aparecem na costa brasileira igualmente), pois seus principais palácios se situam as cercanias das ilhas dos Açores. Raras vezes são encontradas em mar aberto, pois gostam de aproximar-se das desembocaduras dos rios e das rochas da costa.
O pente de ouro e o espelho são seus atributos mais comuns, mas em algumas partes da Europa, elas também usam véu, bolso e têm um cinturão. A posse de qualquer desses objetos permite dominar a sereia, podendo inclusive casar-se com ela.
Dentro de suas características genéricas estariam o dom da profecia (que lhes permite proferir maldições), a sugestionabilidade de sua voz (que lhes permite hipnotizar através dela) e a necessidade de possuir alma e filhos.
Muitas são as lendas (
Livro de Enoch) que dizem que as sereias são originárias do mundo humano, dando-nos a comprovação da maldição proferida por uma mãe à sua filha. As sereias nada mais seriam do que mulheres humanas em sua origem, mas que se transformaram em espíritos da natureza. Esse fato seria bastante significativo, pois explicaria várias reações delas: buscam o contato com o homem para casar-se com ele ou para matá-lo, buscam possuir uma alma que perderam quando passaram para esse estado sobrenatural, podem converter-se com facilidade em mulheres com membros e aspectos humanos, não manifestam nenhuma aversão pelos símbolos cristãos e sua estatura é maior que a das outras fadas.
O francês Benoít de Mallet, publicou, no ano de 1755, uma volumosa obra dedicada às sereias, em que recolheu todo o tipo de lendas relacionadas a elas, chegando à conclusão de que eram seres de uma raça humana primitiva, praticamente desaparecida, assinalando a sua presença desde a Terra do Fogo até Madagascar.

IMAGEM DAS SEREIAS

A imagem estereotipada das sereias é que têm uma doce e melodiosa voz em que está concentrado todo o seu poder. Com seu canto, podem enfeitiçar e fazer com que os homens, os pássaros, os peixes, o vento e a água enlouqueçam. Como os outros seres elementais da natureza, se comunicam com todos os seres vivos e são capazes de controlar as forças naturais benefício próprio, dentro de certos limites. Seu poder está associado à lenda negra que diz que elas alcançam seu grau máximo nas noites de lua cheia, quando sobem à superfície e com seus cantos chamam as névoas, refugiando-se nelas para esperarem os barcos que passam próximos dos seus refúgios. Outras vezes, seus cantos são destinados aos ouvidos dos marinheiros que caem enfeitiçados e acabam loucos ou mortos.
As lendas que existem acerca das sereias sempre são fábulas um pouco exageradas, pois dizem que o desejo delas é afogar jovens marinheiros ou levá-los para seus belos palácios no fundo do mar. Lá, vigiam com zelo os homens e freqüentemente lhes propõem casamento. Se aceitam seus clamores, os marinheiros são tratados amavelmente e podem viver em meio a grandes comodidades e luxo, porém se resistirem, passam o resto da vida existência presos, atados com cadeados de ouro.
Pode parecer que as sereias são cruéis, e talvez em certo sentido o sejam mesmo, sobretudo do ponto de vista humano. Não devemos duvidar que os seres elementais acreditem que os seres humanos fazem parte de um mundo imperfeito, um mundo tão material que está perdendo sua relação harmônica com a Gaia (Terra) e que deprecia todas as outras formas de vidas como os espíritos da natureza.
As sereias não são malvadas, simplesmente se deixam levar pelos sentimentos e instintos e embora do nosso ponto de vista seja aparentemente uma forma selvagem de vida, para elas é um ato de amor.

LENDA SOBRE A ORIGEM DA SEREIA

Essa é uma lenda contada em Cantabria (Espanha) sobre a origem da sereia:
Uma jovem muito linda, de alva pele, esbelta tinha o costume de percorrer as íngremes escarpas da costa para pescar mariscos e também satisfazer a sua paixão de cantar.
Foi repreendida várias vezes por sua mãe para evitar uma possível desgraça e para moderar-se em suas ininterruptas fugas. Porém a jovem, fazendo ouvidos de mercador, nunca levou em conta os pedidos da mãe. Muito pelo contrário, considerava os conselhos da mãe empecilhos que deveriam ser burlados e se deleitava a tagarelar suas canções sobre os penhascos, embriagada de euforia.
Porém, a mãe cansada e farta com tanta desobediência, em um momento de raiva lhe lançou a seguinte maldição
:- Assim permita Deus do Céu que te transformes em peixe!
E, imediatamente a bela jovem fugitiva transformou-se em uma belíssima mulher com rabo de peixe.
Desse conto surgiu uma famosa cantilena que já foi muito popular:

A sereia do mar
é uma moça muito má
que por uma maldição
a colocou Deus na água.

Sereia do mar,
natural de Santander,
por uma maldição
levas nome de mulher.

Meu destino é ser amante
de uma sereia do mar,
pois amar não poderei nunca
mulher alguma mortal.


Há uma outra canção muito conhecida pelo folclore montanhês:

Vi encalhada uma sereia
na praia do Puntal;
Eu me aproximei da areia
e ela buscava o mar.



Sabe-se que todo aquele pescador que consegue capturar uma sereia recebe uma recompensa de Lantarão, o rei-tritão do Cantábrico, um presente especial: o direito de casar-se com ela. Para isso, o pescador deve beijar em seguida a sereia, cujo o rabo de peixe se transforma imediatamente em belas pernas.
Em seguida, a sereia entrega seu espelho que deve ser escondido de forma que ela possa achá-lo, pois, se isso acontecer, o feitiço terminas e ela voltará a transformar-se em sereia e deve regressar ao mar. Essa, sempre teve a esperança de retorno ao seu lar, muito embora não queira dizer que não amem seus maridos humanos.
Na Catalunha não existe a idéia da maldição, porém de soberania. Joan Amades comenta que habitam em magníficos palácios submarinos, cheios de fantásticas riquezas, muito iluminados, onde se servem deliciosos manjares e se ouve acalentadoras músicas. A sereia sente uma grande paixão pelos homens e cada noite, quando o mar está tranqüilo e há uma boa claridade da lua, sai à flor das águas e entoa canções de doçura incomparável, acompanhando-se às vezes com um instrumento de corda.
Como quase todas as lendas, também na Catalunha, a sereia foi em princípio humana,muito bela e vivia em povoado pequeno da costa, passando longas horas em frente às águas do mar Mediterrâneo absorta em seus pensamentos. Todas as propostas de casamento que recebia eram recusadas de forma sistemática por que, consciente de sua grande beleza, não podia se casar com um homem que não fosse tão bravo e valente como o mar.
Um belo dia subiu num barco para estar em contato mais próximo do mar e acabou naufragando. Posteriormente, se supõe que, com o passar dos anos, lhe saíram escamas e rabo de peixe, transformando-se em sereia. Talvez, por essa razão tenha o costume de acabar com a vida dos marinheiros ou de provocar tempestades e marremotos.

SIMBOLISMO

O simbolismo mais veemente da sereia é a da sedução mortal. Certamente, ela é tentadora: 
As asas da sereia são amor de mulher, que ela está pronta a dar e aretomar, escreve Pierre de Beauvais.
A paixão inflamada que ela inspira é perigosa, porque provém do sonho e do inconsciente, e por isso é sonho insensato, fantasma irreal. Para preservar-se das ilusões da paixão (o amor é cego), é necessário, como Ulisses, agarrar-se à dura realidade do mastro (centro do navio e simbolicamente eixo vital do espírito).
Estamos tão condicionados pelo comportamento atávico da lógica que só um salto no oceano da mente, com a ruptura das cadeias do costume, nos libertará dessa confusão mental que nos induz e crer que o normal é o que nos foi ensinado e a história como nos foi doutrinada. Mas, além de tudo que conhecemos, existe uma outra história, um outro conhecimento de ciência e espiritualidade, um nível supremo inimaginável do que é a magia, do poder sagrado da sexualidade, das forças da natureza, que podem aliar-se conosco, assim como também podemos nos unir a ela, sentindo-a parte nossa, voltando a recordar que somos parte sua.


Sereia, John William Waterhouse

A SEREIA
Romanceiro sefardita


- Fosse de leite o mar e os barcos de canela,

tudo eu faria a fim de proteger as velas.

- Fosse de leite o mar, seria pescador,

pescaria o meu mal com palavras de amor.

- Fosse de leite o mar, seria mercador,

percorreria o mundo em busca de um Amor.

- Uma torre há no mar, na torre uma janela,

e na janela está dos marujos a Bela,

- Dá-me a mão, Pomba, quero alcançar o teu ninho,

maldita, dormes, e eu que adormeça sozinho!

TRADUÇÃO DE RENATA CORDEIRO