quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

PAIXÃO PROIBIDA



PAIXÃO PROIBIDA

Estados Unidos, Grã-Bretanha, 1999
Produção: Ralph Fiennes
Direção: Martha Fiennes
Com: Ralph Fiennes, Liv Tyler, Toby Stevens
Música: Magnus Fiennes
Título Original: Onegin
Drama, romance
Baseado no romance homônimo em versos de Alexandre Pushkin


Trata-se de uma adaptação do romance homônimo em versos do século XIX de Alexandre Pushkin sobre o trágico caso de amor entre Eugene Onegin (Ralph Fiennes) e Tatiana Larina (Liv Tyler). Eugene herdou a sua propriedade do tio no interior e vai para o campo para pôr os seus negócios em ordem. Enquanto está lá, trava amizade com Vladimir (Toby Stevens) que o apresenta a Tatiana, a irmã da sua noiva. Tatiana se apaixona perdidamente por Eugene. Para afastá-la, e cruelmente, num baile ele corteja a sua irmã e noiva de Vladimir, que o chama para um duelo, no qual é morto. Onegin retorna a São Petersburgo. Quando volta, anos mais tarde, encontra Tatiana casada e o seu arrependimento acende um amor obsessivo e apaixonado por ela. Mas agora é a vez de ela rejeitá-lo, não porque não o ama mais, mas para permanecer fiel ao marido.
Boas performances destacam “Paixão Proibida”, uma versão, em especial, interessante da complexa história de amor de Pushkin cujo significado contemporâneo brilha por meio das almas torturadas das suas personagens principais. O papel-título da história é protagonizado por Ralph Fiennes, um aristocrata russo do século XIX que, como muitas personagens da literatura daquela época, sofre dos efeitos do mal do século, o spleen. Embora herdeiro de grande fortuna e de propriedades após a morte do tio, Onegin não encontra sentido ou conforto na vida que leva. Está tão entediado com a superficialidade sufocante da lânguida elite privilegiada em pleno esplendor das elegantes mansões e dos resplandecentes salões de baile da cosmopolita São Petersburgo, quanto com a melancólica residência provinciana na bucólica região interiorana, onde se localiza uma das vastas propriedades do seu tio.
Quando visita Vladimir – um poeta com quem travara amizade recentemente – Onegin conhece Tatiana, a bela irmã mais nova da noiva do rapaz. Onegin e Tatiana refletem uma sensibilidade extraordinariamente moderna nos seus temperamentos. Por exemplo, embora a atração entre ambos seja mútua, é Tatiana quem dá o primeiro passo, derramando todo o seu amor pelo recém-chegado numa carta que Onegin polidamente rejeita por temer a frivolidade da alma que ele acredita acompanhar inevitavelmente o casamento e a fidelidade. Não é possível obter-se mais contemporaneidade no tom do que nessas duas personagens, uma caminhando bem além dos limites costumeiros concedidos ao seu sexo no que se refere a romance e o outro refletindo o medo do compromisso que representa o mesmo cativeiro dos tempos atuais.
Ainda assim, o destino usa a sua mão mais cruel no final, quando o próprio Onegin se vê, anos mais tarde, aprisionado num irônico papel inverso e Tatiana, agora casada, é forçada a repelir os avanços de um homem mal-amado e obcecado a quem ela admite ainda amar. Como muitas obras sombrias da literatura russa, a personagem é forçada a viver num inferno criado por ela própria, sofrendo os tormentos de um arrependimento infindável.
O drama pessoal se desenrola no fascinante cenário da sociedade que sofria sutis modificações no século XIX na Rússia, país que, naquela época, parecia sempre estar vários séculos atrás dos seus vizinhos europeus nos movimentos para a libertação em áreas de direitos civis e humanos. Vemos claramente a luta entre o ritualismo vazio e o barbarismo defensivo do passado, ora refletido na contínua instituição da escravidão e em duelos armados quando se tratava da honra, ora na filosofia das luzes do mundo futuro, já que muitos jovens aristocratas passaram a patrocinar a abolição da escravidão e a crescente aceitação do amor como base sólida para o casamento.
Na verdade, os dois jovens, que se amam, não podem libertar-se das convenções que, com frequência, acompanham um tempo incerto das suas tradições. O próprio Onegin, apesar de todo o seu discurso sobre libertar os seus escravos, é forçado a participar de um duelo que o revolta e repugna. E Tatiana, apesar dos seus comentários sobre casar-se só com o homem que viesse a amar, sucumbe à pressão da tradição, concordando, enfim, em desposar um homem com base na classe social, no dinheiro e na posição.
Nesta história estão representadas duas pessoas presas a um mundo que ainda não está pronto para elas, que são forçadas a atender aos compromissos que a sua sociedade considera apropriados. Esse filme bem representado, bem escrito e bem dirigido prende a atenção das pessoas perspicazes, devido à inteligência do diálogo e à representação sutil do elenco, e a beleza calma da direção nos leva a um estranho mundo do passado que ainda tem ressonância e relevância para o mundo atual.


Para quem for ver a última cena no vídeo, que é um pouco comprida, e não domina muito o inglês, eu a traduzi.


ÚLTIMA CENA de Onegin

TATIANA: Por que você veio aqui?
ONEGIN: Eu tinha que vê-la. Perdoe-me.
TATIANA: Gostaria que você fosse embora.
ONEGIN: Eu não posso... não posso...
TATIANA: Por que... por que me persegue assim?
ONEGIN: Porque eu a amo. Eu a amo.
TATIANA: O que você quer? Um momento de triunfo? Um escândalo?
ONEGIN: Não!
TATIANA: Por que essa mudança? Por que essa repentina visão de mim o chocou tanto?
ONEGIN: Porque eu... Não sei. Mas vê-la outra vez... eu... eu vi a mim mesmo.
TATIANA: Você... você está errado quanto ao que diz e como me vê. Eu o escutei seis anos atrás e eu... E achei que você agiu honrosamente, eu... eu não o acuso...
ONEGIN: Por favor... Tatiana... escute-me... por favor
TATIANA: Por quê?
ONEGIN: Escute-me...
TATIANA: Por quê? Porque agora sou nobre? Agora, sou nobre o bastante para você? Eugene, você deveria saber que isso, tudo isso, essa vida, minha vida, minha vida é vazia e sem sentido e com alegria eu trocaria tudo o que você vê ao meu redor pela vida que eu tinha.
ONEGIN: Diga-me que não sente nada.
TATIANA: Meu marido está dormindo lá em cima!
ONEGIN: Diga que me ama.
TATIANA: Eu o amei uma vez, há muito tempo...
ONEGIN: Há... você se esqueceu...
TATIANA: Não...
ONEGIN: Tatiana, eu lhe imploro... fique comigo.
TATIANA: Você... uma vez você me disse que eu podia curar o meu coração. Cure o seu, Eugene.
ONEGIN: E você o curou?
TATIANA: Meu Deus, dói... (chorando)
ONEGIN: Está curado?... Acho que não...
TATIANA: Dói...
ONEGIN: Por que dói? Por quê?... Diga-me... diga-me por que dói!!
TATIANA: Porque você chegou tarde demais!! Sim. Você chegou tarde demais, Eugene...
ONEGIN: Salve-me... salve-me...
TATIANA: Não posso salvá-lo...
ONEGIN: Você tem de salvar-me (ajoelha-se)
TATIANA: Não posso.
ONEGIN: Diga-me que me ama. Por favor, diga-me. Minta para mim. Diga-me que me ama.
TATIANA: Eu o amo, de verdade... Sou mulher de outro homem, entende? E dei-lhe a minha palavra e eu serei fiel a ele... Eu serei... Você deve ir embora, deve deixar-me, por favor... por favor... Não posso vê-lo de novo, você nunca mais pode voltar, nunca mais voltar aqui... por favor... Desculpe-me... Desculpe-me...