quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

FANNY E ALEXANDRE




FANNY E ALEXANDRE

Suécia, França, Ex-República Federal Alemã ,1982
Direção: Ingmar Bergman (1918-2007)
Roteiro: Ingmar Bergman
Com: Bertil Guve (Alexandre) e Pernilla Allawin (Fanny) nos papéis principais
Título Original: Fanny och Alexander
Drama

Tudo pode acontecer, tudo é plausível e provável. O espaço e o tempo não existem. Tendo um frágil pano de fundo de realidade, a imaginação cresce e cria novas cenas.

Ingmar Bergman



Já nas primeiras seqüências de Fanny e Alexandre, Ingmar Bergman define a sua posição e mostra abertamente quais são as suas intenções: no começo do filme aparece um menino contemplando um teatro de marionetes. Um por um desmonta todos os elementos do cenário. De forma similar, o garoto irá penetrando na fachada e desmascarando o mundo dos adultos. A perspectiva desse filme é, sobretudo, a desse menino de dez anos, e o drama se dá a todo instante sob o atento olhar do jovem alter ego de Bergman. Alexandre e sua irmã de oito anos, Fanny, são os membros mais novos dos Ekdahl, uma família que dirige um teatro numa adormecida cidade sueca no começo do século XX. A avó é quem dita as normas do clã com sabedoria e paciência. A vida dos Ekdahl transcorre cheia de surpresas, e oferece a Alexandre constante inspiração para novos e fantásticos jogos. O menino sonha em fazer uma brilhante carreira no teatro, como a sua avó e a sua mãe, mas a morte do pai mudará os seus planos. No ano em que morre o marido, Emilie, a jovem viúva, se casa com o bispo Edvard Vergenus. Em nome do amor e da respeitabilidade, renuncia à carreira de atriz e se muda com os filhos para a residência do bispo. Na atmosfera restrita (e hipócrita) do seu novo lar, as crianças vivem intimidadas e atormentadas. Alexandre, porém, é um rebelde. Na hora de benzer a refeição à mesa, recita indecências pouco cristãs e com sua astúcia cruel e infantil consegue com freqüência enervar o padrasto. Este o surra, sem misericórdia, e, em vez do amor de Deus, Alexandre passa a conhecer mais a fundo o amor do demônio e os métodos da Inquisição. O lar se transforma para a mãe e os filhos num inferno puritano e a todos eles parece um milagre quando, por fim, conseguem escapar dali. O filme Fanny e Alexandre é um tecido de imagens barrocas e de grande dramaticidade, em que Bergman elabora a matéria-prima bruta da sua própria infância. A história dos Ekdahl trata da necessidade do teatro, ou seja, da imaginação na vida humana. O próprio Bergman era filho de um pastor e, talvez por isso, o filme não deixe dúvidas sobre a opinião do diretor acerca da atitude de alguns clérigos santarrões para quem o amor e o temor a Deus não são mais do que instrumentos de poder que eles usam com vistas a dominar e tiranizar a sua família. Oscar Ekdahl, o pai de Fanny e Alexandre, morre de um infarto fulminante durante um ensaio de Hamlet, no qual interpretava o papel do fantasma. Por isso, sempre acudiu o filho Alexandre, que se sente um pouco como a personagem de Shakespeare. Bergman complementa, assim, de forma fluida, a sua realista história familiar com outra de caráter sobrenatural. Além disso, o diretor se esforça por contrastar o dionisíaco amor pela vida que se respira na casa dos Ekdahl com a opressiva disciplina da residência episcopal e tenta explorar o inevitável conflito entre fantasia e razão. Para Bergman, Fanny e Alexandre supõe uma espécie de balanço da sua vida e obra. Embora nos últimos 25 anos o prestigioso artista sueco tenha dirigido inúmeros trabalhos para o teatro e para a televisão, esse é, até hoje, o seu grande longa metragem para o cinema. Fanny e Alexandre foi, além disso, o primeiro filme estrangeiro que obteve quatro Óscares.



A LANTERNA MÁGICA


Alexandre não só possui um teatro de marionetes, mas também uma lanterna mágica, em clara homenagem de Bergman à sétima arte. O primeiro passo para o cinema contemporâneo foi dado no século XVII por Athanasius Kircher, um jesuíta austríaco que inventou a chamada lanterna mágica. O instrumento funcionava com velas e conseguia projetar imagens na parede. Consistia numa caixa iluminada diante da qual se punham pequenas imagens pintadas sobre cristal. Quando estas giravam frente à luz, esse aparato de todo mecânico criava a ilusão de reproduzir o movimento de, por exemplo, trenós ou moinhos de vento. Em 1820, a invenção da luz de cálcio deu grande peso para a invenção do cinema. As novas possibilidades de iluminação permitiram a divulgação da lanterna mágica e das suas “fantasmagorias”. Enfim, se havia tornado possível a representação de movimentos e efeitos surpreendentes, e se podiam reproduzir de forma convincente a chuva, a neve, o fogo e as ondas do mar.