sábado, 23 de abril de 2016

QUATRO SÉCULOS SEM MIGUEL DE CERVANTES, A CIGANINHA



A CIGANINHA


Quando Preciosa o pandeirinho toca


e fere o doce som os ares vãos,


são pérolas que espalha com as mãos;

e são flores que saem dessa boca.


Suspensa a alma, e a cordura muito louca,

seus doces atos mais que humanos são

que por limpos, honestos e mui sãos,

a sua fama alcança o céu e o toca.


Pendentes no menor dos seus cabelos

mil almas leva, e em suas plantas tem

amor algumas flechas dominadas.


Cega e alumbra com sóis deveras belos,

seu império amor por elas mantém

e outras grandezas mais são suspeitadas.  


MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616)

Tradução de Renata Cordeiro