quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

PAIXÃO PROIBIDA



PAIXÃO PROIBIDA

Estados Unidos, Grã-Bretanha, 1999
Produção: Ralph Fiennes
Direção: Martha Fiennes
Com: Ralph Fiennes, Liv Tyler, Toby Stevens
Música: Magnus Fiennes
Título Original: Onegin
Drama, romance
Baseado no romance homônimo em versos de Alexandre Pushkin
CURTA

Trata-se de uma adaptação do romance homônimo em versos do século XIX de Alexandre Pushkin sobre o trágico caso de amor entre Eugene Onegin (Ralph Fiennes) e Tatiana Larina (Liv Tyler). Eugene herdou a sua propriedade do tio no interior e vai para o campo para pôr os seus negócios em ordem. Enquanto está lá, trava amizade com Vladimir (Toby Stevens) que o apresenta a Tatiana, a irmã da sua noiva. Tatiana se apaixona perdidamente por Eugene. Para afastá-la, e cruelmente, num baile ele corteja a sua irmã e noiva de Vladimir, que o chama para um duelo, no qual é morto. Onegin retorna a São Petersburgo. Quando volta, anos mais tarde, encontra Tatiana casada e o seu arrependimento acende um amor obsessivo e apaixonado por ela. Mas agora é a vez de ela rejeitá-lo, não porque não o ama mais, mas para permanecer fiel ao marido.
Boas performances destacam “Paixão Proibida”, uma versão, em especial, interessante da complexa história de amor de Pushkin cujo significado contemporâneo brilha por meio das almas torturadas das suas personagens principais. O papel-título da história é protagonizado por Ralph Fiennes, um aristocrata russo do século XIX que, como muitas personagens da literatura daquela época, sofre dos efeitos do mal do século, o spleen. Embora herdeiro de grande fortuna e de propriedades após a morte do tio, Onegin não encontra sentido ou conforto na vida que leva. Está tão entediado com a superficialidade sufocante da lânguida elite privilegiada em pleno esplendor das elegantes mansões e dos resplandecentes salões de baile da cosmopolita São Petersburgo, quanto com a melancólica residência provinciana na bucólica região interiorana, onde se localiza uma das vastas propriedades do seu tio.
Quando visita Vladimir – um poeta com quem travara amizade recentemente – Onegin conhece Tatiana, a bela irmã mais nova da noiva do rapaz. Onegin e Tatiana refletem uma sensibilidade extraordinariamente moderna nos seus temperamentos. Por exemplo, embora a atração entre ambos seja mútua, é Tatiana quem dá o primeiro passo, derramando todo o seu amor pelo recém-chegado numa carta que Onegin polidamente rejeita por temer a frivolidade da alma que ele acredita acompanhar inevitavelmente o casamento e a fidelidade. Não é possível obter-se mais contemporaneidade no tom do que nessas duas personagens, uma caminhando bem além dos limites costumeiros concedidos ao seu sexo no que se refere a romance e o outro refletindo o medo do compromisso que representa o mesmo cativeiro dos tempos atuais.
Ainda assim, o destino usa a sua mão mais cruel no final, quando o próprio Onegin se vê, anos mais tarde, aprisionado num irônico papel inverso e Tatiana, agora casada, é forçada a repelir os avanços de um homem mal-amado e obcecado a quem ela admite ainda amar. Como muitas obras sombrias da literatura russa, a personagem é forçada a viver num inferno criado por ela própria, sofrendo os tormentos de um arrependimento infindável.
O drama pessoal se desenrola no fascinante cenário da sociedade que sofria sutis modificações no século XIX na Rússia, país que, naquela época, parecia sempre estar vários séculos atrás dos seus vizinhos europeus nos movimentos para a libertação em áreas de direitos civis e humanos. Vemos claramente a luta entre o ritualismo vazio e o barbarismo defensivo do passado, ora refletido na contínua instituição da escravidão e em duelos armados quando se tratava da honra, ora na filosofia das luzes do mundo futuro, já que muitos jovens aristocratas passaram a patrocinar a abolição da escravidão e a crescente aceitação do amor como base sólida para o casamento.
Na verdade, os dois jovens, que se amam, não podem libertar-se das convenções que, com freqüência, acompanham um tempo incerto das suas tradições. O próprio Onegin, apesar de todo o seu discurso sobre libertar os seus escravos, é forçado a participar de um duelo que o revolta e repugna. E Tatiana, apesar dos seus comentários sobre casar-se só com o homem que viesse a amar, sucumbe à pressão da tradição, concordando, enfim, em desposar um homem com base na classe social, no dinheiro e na posição.
Nesta história estão representadas duas pessoas presas a um mundo que ainda não está pronto para elas, que são forçadas a atender aos compromissos que a sua sociedade considera apropriados. Esse filme bem representado, bem escrito e bem dirigido prende a atenção das pessoas perspicazes, devido à inteligência do diálogo e à representação sutil do elenco, e a beleza calma da direção nos leva a um estranho mundo do passado que ainda tem ressonância e relevância para o mundo atual.


Para quem for ver a última cena no vídeo, que é um pouco comprida, e não domina muito o inglês, eu a traduzi.


ÚLTIMA CENA

TATIANA: Por que você veio aqui?
ONEGIN: Eu tinha que vê-la. Perdoe-me.
TATIANA: Gostaria que você fosse embora.
ONEGIN: Eu não posso... não posso...
TATIANA: Por que... por que me persegue assim?
ONEGIN: Porque eu a amo. Eu a amo.
TATIANA: O que você quer? Um momento de triunfo? Um escândalo?
ONEGIN: Não!
TATIANA: Por que essa mudança? Por que essa repentina visão de mim o chocou tanto
ONEGIN: Porque eu... Não sei. Mas vê-la outra vez... eu... eu vi a mim mesmo.
TATIANA: Você... você está errado quanto ao que diz e como me vê. Eu o escutei seis anos atrás e eu... E achei que você agiu honrosamente, eu... eu não o acuso...
ONEGIN: Por favor... Tatiana... escute-me... por favor
TATIANA: Por quê?
ONEGIN: Escute-me...
TATIANA: Por quê? Porque agora sou nobre? Agora, sou nobre o bastante para você? Eugene, você deveria saber que isso, tudo isso, essa vida, minha vida, minha vida é vazia e sem sentido e com alegria eu trocaria tudo o que você vê ao meu redor pela vida que eu tinha.
ONEGIN: Diga-me que não sente nada.
TATIANA: Meu marido está dormindo lá em cima!
ONEGIN: Diga que me ama.
TATIANA: Eu o amei uma vez, há muito tempo...
ONEGIN: Há... você se esqueceu...
TATIANA: Não...
ONEGIN: Tatiana, eu lhe imploro... fique comigo.
TATIANA: Você... uma vez você me disse que eu podia curar o meu coração. Cure o seu, Eugene.
ONEGIN: E você o curou?
TATIANA: Meu Deus, dói... (chorando)
ONEGIN: Está curado?... Acho que não...
TATIANA: Dói...
ONEGIN: Por que dói? Por quê?... Diga-me... diga-me por que dói!!
TATIANA: Porque você chegou tarde demais!! Sim. Você chegou tarde demais, Eugene...
ONEGIN: Salve-me... salve-me...
TATIANA: Não posso salvá-lo...
ONEGIN: Você tem de salvar-me (ajoelha-se)
TATIANA: Não posso.
ONEGIN: Diga-me que me ama. Por favor, diga-me. Minta para mim. Diga-me que me ama.
TATIANA: Eu o amo, de verdade... Sou mulher de outro homem, entende? E dei-lhe a minha palavra e eu serei fiel a ele... Eu serei... Você deve ir embora, deve deixar-me, por favor... por favor... Não posso vê-lo de novo, você nunca mais pode voltar, nunca mais voltar aqui... por favor... Desculpe-me... Desculpe-me...


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ANTES QUE TERMINE O DIA




Diretor: Gil Jonger
Roteiro: Christina Welsh
Com: Jennifer Love Hewitt, Paul Nicholls, Lucy Davenport, Diana Hardcastle, Tom Wilkinson, Robert Ziegler
Música: Adrian Johnstone
Fotografia: Giles Nuttgens
Título Original: If Only
Ano: 2002

Ian (Paul Nicholls) e Samantha (Jennifer Love Hewitt) formam um casal feliz e cheio de planos para o futuro. Enquanto Samantha tenta demonstrar seu amor a todo momento, Ian procura voltar sua atenção para a carreira e os amigos. Após um dia em que tudo aconteceu, eles terminam o namoro. Porém, um acidente faz com que a vida deles mude de rumo. No dia seguinte, Ian percebe que acordou novamente no dia anterior, tendo a chance de refazer tudo o que já fizera, só que agora da forma correta. “Antes que termine o dia” joga com uma fantasia que todos já tiveram alguma vez, sobretudo após uma perda ou um fracasso: a possibilidade de voltar o tempo, passar, de novo, pelo momento que julgamos crucial e (sabendo o que pode acontecer), irmos prevenidos para modificar a nossa conduta, evitar o que deve ser evitado, e, por conseguinte, alterar o desfecho. Ou seja: conjurar a perda ou o fracasso. A vida não nos costuma dar segundas chances, sobretudo se o que o experimentamos foi a morte de um ser querido, mas o que na realidade é impossível, não o é no Cinema, que é capaz de remediar essa carência e fazer-nos sonhar com esse milagre que evitará dores e culpas. É o que vivem os protagonistas desta linda fantasia romântica escrita por Christina Welsh e dirigida por Gil Junger. Ela é uma norte-americana que está prestes a regressar aos Estados Unidos após uma longa estada em Londres, onde aperfeiçoou os seus estudos musicais e conheceu o rapaz por quem é perdidamente apaixonada. E é correspondida. Pelo menos é o que ele diz, só que o rapaz não dispõe de tempo, tampouco de energias suficientes para concretizar plenamente essa paixão, porque põe seus compromissos profissionais acima de tudo e sempre parece um tanto distante. Então, começa a manifestar-se o calado conflito, quando chega o momento das decisões, porque está na hora de ela voltar da academia e regressar ao seu país. Haverá discussão. Ocorre o inesperado. A tragédia, a dor, o desconsolo, o remorso, e também o milagre – a segunda chance – em que, com certeza, intervém um ubíquo taxista que fala como um guru e aconselha como um consultor sentimental. A dose de lirismo vai aumentando, as belas cenas idílicas se vão construindo como um sonho e o romantismo do diretor atinge o topo, enchendo-nos os olhos de emoções. Impossível não chorar. Jennifer Love Hewitt atinge o sublime quando canta, sobretudo no final, suas próprias composições. O papel de Ian caiu como uma luva para Paul Nicholls. E que dizer da atuação de Tom Wilkinson? Angelical, pura e simplesmente. Belíssimo filme. 

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ANTES QUE TERMINE O DIA
Renata Cordeiro

Amo ouvir sua voz, dizendo-me coisas... amo imaginar que estou ao seu lado, sentindo o seu corpo colado ao meu... amo imaginar os seus lábios tocando os meus e num beijo molhado, saciando a minha sede e calando a minha alma... amo o seu perfume, o seu jeito de ser... amo acreditar que vamos ficar juntos para sempre... tudo em você me completa... ter encontrado você foi o meu melhor presente... sinto-me feliz ao seu lado, porque você é muito especial para mim... transformou a minha vida e mudou o meu mundo... fez-me ver cores e flores onde antes eu não via, a maior delas foi a descoberta do verdadeiro amor... e por isso eu lhe digo, do fundo do coração: eu amo e vou amar você, cada dia mais, até o último dia da minha vida. Amar todos os dias como se fosse o primeiro e o único. Ser delicado e ser justo, adorar, apreciar cada momento. Ser gentil, desejar, viajar, acreditar, querer. Proteger, beijar, abraçar, dizer não quando achar necessário, agradecer, chorar de felicidade, amar. Antes que termine o dia.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES




O MORRO DOS VENTOS UIVANTES


Obra em que o mundo é concebido como o campo da batalha entre o Céu e o Inferno, O Morro dos Ventos Uivantes é um grande romance metafísico. Os lugares em que se dá a ação simbolizam as forças do Bem e do Mal. O Morro, circundado de brumas, casa austera, sem conforto e sem alegria, está em poder das forças infernais (embora se situe no alto, perto do Céu, o que, de certa forma, subverte a doutrina maniqueísta). Já a Granja da Cruz do Tordo, no vale, é um lugar calmo que revela toda a sua beleza aos olhos encantados de Cathy e de Heathcliff. Energia e tempestade, de um lado; fragilidade e doçura, do outro: o romance é construído com base nesse contraste.

É a tempestade que vence e aniquila a doce quietude da casa de baixo. O Morro dos Ventos Uivantes é um romance noturno, marcado pela força das “profundas trevas”,[1] que tanto apavoram a alma puritana. Todas as grandes cenas acontecem à noite e, geralmente, quando sopra o vendaval. É à noite que surge o menino Heathcliff, sob o casaco de Earnshaw, o dono da casa, que o trouxe de Liverpool. É à noite que morre o patrão; é à noite que Heathcliff desaparece e aparece, como um fantasma, na Granja da Cruz do Tordo. É numa noite de luar que Catherine volta para casa; mas é também durante certa noite enluarada que Heathcliff vai procurá-la. A lua, astro noturno, empresta o seu pálido lume para a maior parte das cenas fúnebres. É à noite que Nelly percebe que Catherine vai unir-se a Linton. E, é claro, durante uma assustadora noite que Heathcliff manda abrir o caixão de Cathy.
A passagem das estações, claramente perceptível no campo, quase não é notada aqui: o vento, a tempestade, a neve e a noite são onipresentes.
A noite e o vento criam um universo poético que transforma o romance num grande poema lírico. Pois se as personagens fossem pessoas reais, seriam os atores de um drama atemporal, arrastados por um torvelinho que o adjetivo provinciano wuthering[2] exprime tão bem. Escrito em plena época vitoriana, o romance – muito mal recebido quando lançado – é, sem dúvida alguma, a mais perfeita expressão do romantismo inglês.
Renata Maria Parreira Cordeiro, tradutora do livro. 
Tradução feita com a colaboração de Eliane G. Silveira.




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FLASHES SOBRE O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

“Percebemos em O Morro dos Ventos Uivantes essa grandiosa ambição, esse esforço meio frustrado e, no entanto, cheio de magnífica convicção, para dizer, através das personagens, algo que não seja só Eu amo ou Eu odeio, mas Nós, humanos,... e Vós, poderes eternos,...
Virginia Woolf, 1916

O Morro dos Ventos Uivantes é um grande livro, porque as paixões, além de serem intensas, são oprimidas pela lembrança amarga e trágica de todos aqueles que, durante gerações, moraram nos mesmos lugares e carregaram o pesado fardo dos sofrimentos dos mortos.
É um grande livro, porque o romantismo penetra em espaços de uma imensidão serena e neles se manifesta em vastas formas primitivas e imponentes, desdenhosas de todo e qualquer ornamento frívolo.”
John Cowper Powys, 1916

“O Morro dos Ventos Uivantes: Não se exclui a possibilidade de que essa moça inglesa tivesse tão-só o desejo de mostrar até onde pode ir um ser de boa natureza, quando privado de influências morais. O paralelismo dos exemplos: origem nobre e baixa condição social parece confirmar essa hipótese. Mas o puro mal feminino subverte a pequena fábula moral.
Com um pouco mais de filosofia imanente, teríamos um romance de Stendhal. Mas certo romantismo fica incrustado nas personagens, e o mal só pode jorrar desmesuradamente. Um pouquinho de ironia e essa criadora de crimes íntegros teria sido uma escritora de primeira linha.”
Robert Musil, 1915-1920

“Com certeza, havia algo de solitário e melancólico na personalidade, na imaginação criadora dessa mulher que viveu na mais completa solidão, e cujo gênio ignorava o desprezo. Ela acreditava no Deus indestrutível que a habitava e foi, para sempre, reduzida ao silêncio; e, com ela, o seu gênio que soprava como o vento, rebentava como o mar furioso, derretia como as nuvens tempestuosas sobre as águas trágicas e perigosas da paixão que circundam as “torres sem topo”, como diria Marlowe no seu Fausto, de O Morro dos Ventos Uivantes.”
Arthur Simons, 1918

“O que impera em O Morro dos Ventos Uivantes é o som da tempestade e do vendaval, som esse mais importante do que palavras e pensamentos. Um grande romance.”
E. M. Foster, 1927

“Talvez a mais bela, a mais profundamente violenta história de amor (...). O destino quis, ao que tudo indica, que Emily Brontë, ainda que fosse uma linda mulher, ignorasse por completo o amor, e que conhecesse a paixão com angústia: esse tipo de conhecimento que liga o amor não só à clareza, mas também à violência e à morte (...). Um dos mais belos livros da literatura de todos os tempos.”
Georges Bataille, 1957

O Morro dos Ventos Uivantes, lentamente construído pelos extravasamentos de uma vida, e enriquecido, dia a dia, pelo seu desejo e doçura, é único sobretudo porque é um romance de uma alma única.”
François Mauriac, 1958-1961

“(...) O Morro dos Ventos Uivantes pode ser visto como uma obra de madura e surpreendente magnitude. O poético e o “prosaico” estão em estranha harmonia; o metafísico é contrabalançado pelo físico. Podemos ver o que se considerava anomalia no seu tempo como magnificência em nosso.”
Joyce Carol Oates, 1983

“Como todo romance, este se fundamenta na história de quem o escreveu. Com a mesma matéria, a romancista poderia ter escolhido outro enredo: o que ela privilegiou foi a total solidão de Heathcliff. Ele não pertence a ninguém, não pertence a nada. Sozinho no mundo, vem do nada, apesar de uma partida e de uma volta que poderia transformar-se em renascimento. Condenado à solidão, alivia o seu mal pela autoviolência. A criação de Heathcliff remonta às recordações profundas de Emily Brontë: o desespero de Branwell, o seu querido irmão, cuja neurose foi desencadeada por uma decepção amorosa; a solidão do pai, o pastor que enviuvou; a morte das duas irmãs mais velhas – todos esses dramas vividos ainda na inocência.”
Diane de Margerie, 1984

O Morro dos Ventos Uivantes. Trata-se de uma história terrível, apavorante, maravilhosa, em que há amor, ódio, horror, e um homem chamado Heathcliff, que é forte e cruel como o próprio diabo. Eu a li tarde da noite, quando o vento uivava em torno da casa, soprando neve contra as janelas, e, às vezes, eu tinha medo.”
Tim Vicary, 1991

“Para muitos de nós, O Morro dos Ventos Uivantes é um sonho vívido de que não nos lembramos por inteiro ao despertar. Lembramo-nos do que foi mais tocante, mais bonito, do que satisfez os nossos mais profundos desejos.”
Susan Fromberg Schaeffer, 1993

“Em O Morro dos Ventos Uivantes predomina a personagem de Heathcliff, animada por uma destrutiva paixão, uma verdadeira “réplica” de outras tantas figuras devastadoras do gothic novel inglês; mas o seu caráter inflexível de dark hero nasce de uma infelicidade desesperada e profunda que o leva a viver, até o fim, a própria morte com a morte da amada, numa espécie de aspiração erótico-panteísta que confere à sua personagem uma dimensão completamente inédita.”
Mario Lunetta, 1993

O Morro dos Ventos Uivantes é uma grandiosidade solitária, surgida de uma experiência de vida que me deixa perplexo (...). O gênio, com freqüência adaptável, raramente é tão intransigente como em Emily Brontë (...). A gnose pessoal de Emily Brontë é complexa (...), mas O Morro dos Ventos Uivantes nos permite absolvê-la; na verdade, é difícil para nós deixarmos de nos converter à religião pessoal da autora, enquanto nos entregamos a O Morro dos Ventos Uivantes.”
Harold Bloom, 2002

“Emily Brontë descreve a trama com uma riqueza de vocabulário que impressiona, mesclando emoções, sensações e tragédias. Com astúcia e sutileza, deixa deliberadamente ao leitor a tarefa de transitar entre a psicologia e a superstição, por intrincados caminhos de realidade e fantasia.”
Luciano Bogi, 2003

“Em O Morro dos Ventos Uivantes, a autora revela uma imaginação fora do comum, impetuosa, com tendência ao sobrenatural. Na “malvadeza” de Heathcliff se vislumbra o herói byroniano, artificioso, porém descrito com intensidade e agudeza que o tornam inesquecível. (...) O tema tratado causou escândalo: um grande amor, mas também o casamento de conveniência, que mexeu com a sociedade hipócrita do século XIX. (...) Os críticos atuais tendem a ver no romance o protótipo “do amor romântico”, sublimado pelo sofrimento, em que há pouca sensualidade, mas muita paixão e violência.”
Roberta Gallina, 2003

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Capítulo III do romance

Enquanto me levava para cima, recomendou-me que escondesse a vela e não fizesse barulho, pois o patrão tinha uma estranha cisma com o quarto em que ia alojar-me e nunca permitia, de boa vontade, que o ocupassem. Perguntei-lhe a razão disso. Respondeu-me que a desconhecia, porque há um ano ou dois apenas morava na casa, e todos tinham tantas esquisitices que era melhor não mostrar-se curiosa.

Surpreso demais para também ficar curioso, corri até a porta e olhei ao meu redor, à procura da cama. Toda a mobília se resumia numa cadeira, num armário com prateleiras para roupas e num grande móvel de carvalho com aberturas quadradas no alto, semelhantes a janelas de carruagem. Aproximando-me do dito móvel, olhei para dentro e vi que era uma espécie de cama antiga,[3] idealizada com muita conveniência a fim de não haver a necessidade de um dormitório para cada membro da família. Na verdade, formava um pequeno quarto, e o peitoril da janela, ali contida, servia de mesa. Baixei os batentes laterais, fui entrando com a vela, voltei a fechá-los e senti-me a salvo da vigilância de Heathcliff e de todos os outros.

No parapeito, onde pus a vela, havia alguns livros cheios de bolor, empilhados num canto, bem como várias inscrições feitas a ponta de faca. Estas, entretanto, repetiam sempre, em vários tipos de letras, grandes e pequenas, o mesmo nome: Catherine Earnshaw, aqui e ali, que variava para Catherine Heathcliff, e para Catherine Linton.[4]

Numa anestesiante inação, apoiei a cabeça no parapeito da janela e prossegui soletrando Catherine Earnshaw... Heathcliff... Linton, até os meus olhos se fecharem. Mas não haviam descansado sequer cinco minutos quando um brilho de letras brancas surgiu, de súbito, do escuro, luminosas como fantasmas – o ar se povoou de Catherines. E, na tentativa de despertar para fugir desse nome inoportuno, vi que a vela se derretia num daqueles livros velhos, espalhando um cheiro de couro queimado. Soprei-lhe a capa e, sentindo-me mal, de frio e de uma persistente náusea, sentei-me e abri o volume danificado sobre os joelhos. Era uma Bíblia, em caracteres pequenos, que cheirava horrivelmente a bolor, em cuja página inicial se lia a inscrição “Este livro pertence a Catherine Earnshaw” e uma data de cerca de um quarto de século atrás. Fechei-o e peguei outro, e outro, até havê-los examinado a todos. A biblioteca de Catherine era seleta e o estado de ruína provava que fora muito usada, embora nem sempre para o seu adequado fim: eram raros os capítulos em que não havia comentários escritos a tinta – sempre havia pelo menos um – cobrindo cada pedaço vago deixado pela impressão. Alguns eram frases soltas, enquanto outros tomavam a forma de um verdadeiro diário, garranchos escritos por uma desajeitada mão de criança. No alto de uma página em branco (com certeza, um verdadeiro tesouro, quando encontrada), regalei-me com uma excelente caricatura do meu amigo Joseph, grosseira, ainda que muito bem esboçada. Surgiu dentro de mim um interesse imediato pela desconhecida Catherine e pus-me, na hora, a decifrar os hieróglifos apagados.

Que domingo horrível! – começava o parágrafo abaixo. Pudesse o meu pai voltar... Hindley é um substituto detestável – o comportamento dele em relação a Heathcliff é ultrajante. – H. e eu nos rebelaremos. – Demos o primeiro passo esta noite.

Choveu a cântaros o dia todo. Não pudemos ir à igreja, então Joseph teve que reunir a congregação no sótão e, enquanto Hindley e a sua esposa se divertiam lá embaixo, diante da aconchegante lareira – ocupados com tudo, menos com a leitura da Bíblia, garanto –, Heathcliff, eu e o infeliz lavrador fomos obrigados a pegar os nossos livros de orações e subir: alinhados em fila, em cima de um saco de milho, resmungando e tremendo, esperávamos que Joseph também tremesse, para que nos aplicasse um sermão curto em benefício próprio. Que sonho! A cerimônia religiosa durou três horas exatas, e o meu irmão ainda teve a ousadia de exclamar, quando nos viu descendo:

– O quê!? Já acabou?

Antes, nas noites de domingo, em geral tínhamos permissão para brincar, desde que não fizéssemos muito barulho. Agora o mais leve riso é suficiente para nos porem de castigo!

– Vocês se esquecem de que há quem mande aqui – disse o tirano. – Acabo com o primeiro que me puser fora do sério! Exijo compostura e silêncio. Ah, foi você? Frances, querida, puxe o cabelo dele, quando passar. Bem que o ouvi estalando os dedos.

Frances puxou-lhe o cabelo sem piedade e foi sentar-se nos joelhos do marido. E lá ficaram eles, como dois nenês, beijando-se e falando coisas sem sentido por uma hora – conversinhas tolas, de que nos envergonharíamos. Acomodamo-nos o melhor possível debaixo do arco do aparador. Mal acabara de amarrar os aventais e suspendê-los para fazer uma cortina, Joseph entrou, vindo do estábulo. Rasgou as minhas cortinas, bateu-me no rosto e ralhou:

– O patrão foi enterrado há pouco, o domingo[5] nem acabou, as palavras da Bíblia ainda ecoam nos seus ouvidos, e vocês ousam brincar! Que vergonha! Sentem-se, seus endemoninhados! Há muitos livros bons para ler! Sentem-se e pensem nas suas almas!

Dito isso, forçou-nos a corrigir as posturas para recebermos, do fogo distante, um raio pálido que iluminasse o texto dos livros que nos lançou. Não pude suportar aquilo. Peguei pela borda o livro encardido e atirei-o aos cães, jurando detestar bons livros. Heathcliff atirou o dele, a pontapés, para o mesmo lugar. Daí, formou-se uma grande confusão!

– Senhor Hindley – urrava o nosso capelão. – Patrão, venha cá! A senhorita Cathy rasgou a lombada de O Elmo da Salvação, e Heathcliff deu pontapés, com raiva, na primeira parte de A Longa Estrada para a Destruição! É melhor fazer algo para que eles mudem de comportamento. Arre! O antigo patrão já teria tomado as devidas providências, mas não está mais entre nós!

Hindley saiu na hora do seu paraíso junto à lareira e, agarrando um de nós pela gola, e o outro pelo braço, lançou-nos ao fundo da cozinha, onde, segundo Joseph afirmava, o Cão-Tinhoso nos viria assombrar, e isso era tão certo quanto o fato de estarmos vivos. E, assim confortados, cada qual procurou um canto onde aguardar o dito advento. Consegui este livro e um tinteiro numa prateleira. Empurrei um pouco a porta para receber luz e tive tempo de escrever por vinte minutos. Mas o meu companheiro está impaciente, e propôs que pegássemos a capa do rapaz do leite e fugíssemos para o pântano, usando-a como abrigo. Uma agradável sugestão, – e, depois, quando o velho ranzinza vier, talvez acredite que a sua profecia se confirmou – debaixo da chuva não poderemos ficar mais úmidos e gelados do que aqui.

Suponho que Catherine levou adiante o seu projeto, porque o parágrafo seguinte tratava de outro assunto. Estava chorosa.

Nunca imaginei que Hindley pudesse fazer-me sofrer assim!, escreveu. Dói-me tanto a cabeça que mal consigo encostá-la no travesseiro. Mas não posso render-me. Pobre Heathcliff!! Hindley chamou-lhe vagabundo e não mais o deixará sentar-se, nem tampouco fazer as refeições conosco. Disse que não podemos mais brincar juntos, e ameaça expulsá-lo se desobedecermos às suas ordens. Culpou o nosso pai (como ousa?) de tratar H. com muita liberalidade, e jura que vai pô-lo no seu devido lugar...

Quase cochilava, com a cara metida na página mal iluminada. Os meus olhos perambulavam do manuscrito para as letras impressas. Vislumbrei um título vermelho ornamentado “Setenta vezes sete[6] e o Primeiro da Septuagésima-Primeira.[7] Sermão pregado pelo Reverendo Jabes Branderham,[8] na Capela do Gimmerden Sough”. E, enquanto tentava, semiconsciente, adivinhar o que Jabes Branderham falaria sobre esse assunto, mergulhei na cama e caí no sono. Pobre de mim, maus efeitos do desagradável chá e do péssimo humor! O que mais poderia fazer-me passar uma noite tão terrível? Não me recordo de nenhuma comparável a esta desde que me tornei suscetível ao sofrimento.

Comecei a sonhar antes mesmo de perder a noção de onde estava. E achei que já era de manhã e que me pusera a caminho de casa, tendo Joseph como guia. A neve espessa cobria quilômetros da estrada e, enquanto cambaleávamos pelo caminho, o meu companheiro me aborrecia com constantes repreensões pelo fato de eu não haver trazido um cajado de peregrino, dizendo que nunca poderia entrar em casa sem algum, e ostentava, garboso, um pesado bordão, ao qual percebi que dava aquele nome. Por um momento, achei absurdo precisar de um cajado para poder entrar na minha própria residência. Então, ocorreu-me, de súbito, uma nova idéia. Não estava indo para casa. Estávamos viajando para ouvir o famoso Jabes Branderham que ia pregar o sermão baseado no texto Setenta vezes sete, e um de nós três, Joseph, o pastor ou eu, cometera o Primeiro da Septuagésima-Primeira, e seria desmascarado e excomungado em público.

Chegamos à capela. Nas minhas caminhadas, por duas ou três vezes, já passei por lá. Fica numa concavidade entre duas colinas, de grande altitude, próxima a um pântano, cuja composição de lama turfosa é bem apropriada, parece-me, para embalsamar os poucos cadáveres ali depositados. O telhado mantém-se intacto até hoje, mas como os honorários de um pastor são de apenas vinte libras, a que se soma uma casa de dois cômodos, que ameaçam transformar-se de uma hora para outra num só, não há clérigo que queira assumir as obrigações de pastor, ainda mais porque é sabido e notório que o seu rebanho prefere vê-lo morrer de fome a aumentar-lhe a contribuição em um centavo que venha dos seus bolsos. Entretanto, no meu sonho, Jabes tinha uma congregação repleta e atenta, e pregava... Meu Deus!... que sermão: dividido em quatrocentas e noventa partes, cada uma igual em conteúdo a uma prédica comum do púlpito, e cada qual discutindo um pecado diferente! Onde achou tudo isso, não sei dizer. Tinha maneiras próprias de interpretar o texto e parecia imprescindível que o irmão, a cada vez, cometesse pecados distintos. Estes tinham os mais curiosos atributos: estranhas transgressões que eu jamais imaginara.

Oh, aquilo me foi levando à exaustão! Como me contorcia, bocejava, pestanejava e despertava! Como me beliscava e me espetava, esfregava os olhos, levantava-me, e tornava a sentar-me, cutucava Joseph para saber se já acabara. Estava condenado a ouvir aquilo tudo. Enfim, chegou ao Primeiro da Septuagésima-Primeira. Àquele ponto decisivo, tive uma repentina inspiração. Fui impelido a levantar-me e denunciar Jabes Branderham por haver cometido o pecado que nenhum cristão pode perdoar.[9]

– Senhor – exclamei – sentado aqui entre estas quatro paredes, de uma só vez, tolerei e perdoei os quatrocentos e noventa tópicos do seu sermão. Setenta vezes sete vezes, pus o chapéu e estive a ponto de partir. Setenta vezes sete vezes, o senhor absurdamente me obrigou a retomar o assento. A quadringentésima-nonagésima-primeira é demais. Companheiros de martírio, a ele! Vamos derrubá-lo e reduzi-lo a migalhas, para que nunca mais volte e ninguém mais se lembre dele![10]

– O homem és tu![11] – gritou Jabes, depois de uma pausa solene, inclinando-se sobre a almofada – setenta vezes sete vezes, contorceste a fisionomia em bocejos e setenta vezes sete vezes, tive que consultar a minha própria alma. Ora! É apenas uma fraqueza humana, isso também pode ser absolvido! O Primeiro da Septuagésima-Primeira chegou. Irmãos, cumpram nele a sentença prescrita, porque é uma honra para todos os fiéis![12]

A essa palavra conclusiva, toda a assembléia, brandindo os cajados de peregrino, rodeou-me de uma só vez. E eu, sem uma arma sequer para erguer em autodefesa, comecei a disputar com Joseph, o meu mais próximo e mais feroz atacante, o seu cajado. Na afluência do populacho, vários bordões se cruzaram, e golpes destinados a mim caíram sobre outras cabeças. Agora, toda a capela ressoava a ataques e contra-ataques, a mão de cada homem estava contra o seu irmão.[13] E Branderham, sem vontade alguma de permanecer ocioso, despejava o seu entusiasmo numa chuva de sonoros tapas nas tábuas do púlpito, que ressoavam com tanta força a ponto de, para o meu indizível alívio, me despertarem. E o que significava todo aquele tumulto? Qual foi o papel de Jabes no ocorrido? Tão-só o galho de um pinheiro que tocou a minha janela, com o zunido de uma rajada de vento, e tamborilou as suas pinhas secas nas vidraças! Ouvi, hesitando por um instante, e, detectada a origem da perturbação, virei-me, adormeci, voltei a sonhar, e tive um pesadelo pior do que o anterior, se é possível.

Desta vez, recordava-me de que estava deitado dentro do móvel, e ouvia com clareza a rajada de vento e a neve a cair com intensidade. Ouvia também o galho do pinheiro a repetir o som inoportuno e sabia o que o causava. Mas me aborrecia tanto, que resolvi silenciá-lo, se possível. Pensei um pouco, levantei-me e tentei abrir a janela. O fecho estava soldado no batente, fato que observei quando acordado, mas de que me esquecera. “Tenho que acabar com este barulho de qualquer jeito!”, resmunguei, esmurrando a vidraça e esticando um dos braços para fora, com o intuito de agarrar o galho inconveniente. Em vez disso, os meus dedos se fecharam nos dedos de uma mãozinha gelada! O imenso horror do pesadelo baixou sobre mim. Tentava puxar o braço, mas a mão se agarrou com força a ele, e a voz mais melancólica do mundo gemeu:

– Deixe-me entrar, deixe-me entrar!

– Quem é você? – perguntei, enquanto fazia força para me soltar.

– Catherine Linton – replicou, tremendo (por que pensei em Linton? Li Earnshaw vinte vezes mais do que Linton). – Estava a caminho de casa e me perdi no pântano!

Conforme eu disse, vislumbrei vagamente um rosto de criança, que olhava pela janela. O terror me levou à crueldade e, julgando inútil tentar atirar para longe a criatura, puxei-lhe os pulsos para a vidraça quebrada, e esfreguei-os de um lado para o outro, até que o sangue começou a jorrar, ensopando as roupas de cama. Ainda berrava:

– Deixe-me entrar! – e mantinha o aperto forte, quase enlouquecendo-me de medo.

– E como posso fazer isso? – acabei dizendo. – Peço que me solte, se você quer que eu a deixe entrar!

Os seus dedos relaxaram. Arranquei o braço do buraco, e de imediato empilhei os livros, formando uma pirâmide para obstrui-lo; em seguida, tapei os ouvidos para aquela súplica angustiante. Pareceu-me que os mantive fechados por mais de quinze minutos, e ainda assim, no instante em que voltei a ouvir, continuava o triste lamento!

– Vá-se embora! – gritei. – Nunca a deixarei entrar, nem que me implore por vinte anos.

– Faz vinte anos – lamentou a voz – vinte anos. Esperei por vinte anos!

Nesse momento, comecei a ouvir o som de arranhões do lado de fora, e a pilha de livros se mexeu, como se houvesse sido empurrada. Tentei erguer-me, mas não pude mover um membro sequer. Então berrei, num frenesi de horror. Para confusão minha, descobri que gritar não era uma boa idéia, pois ouvi passos rápidos que se aproximavam da porta do aposento, alguém que a puxava para abri-la com força, e vi uma luz que entrava pelas aberturas no alto do móvel. Sentei-me, ainda tremendo, convulso, e enxugando o suor da testa. O intruso pareceu hesitar e resmungou algo para si mesmo. Por fim, perguntou, quase sussurrando, é claro que sem esperar a resposta:

– Há alguém aí?

Achei que era melhor confessar a minha presença, uma vez que reconheci a voz de Heathcliff e temia que fizesse uma inspeção, se eu ficasse quieto. Com esse intuito, virei-me e abri os postigos. Nunca me esquecerei do efeito que a minha ação produziu.

Heathcliff ficou parado na entrada, só de calça e camisa, com uma vela pingando nos dedos, e o rosto tão branco como a parede atrás dele. O primeiro estalo da madeira assustou-o como se fosse um choque elétrico! A vela lhe pulou da mão, projetando-se a alguns metros de distância, e estava tão agitado que nem conseguiu apanhá-la de volta.

– É apenas o seu hóspede, senhor – disse, desejando poupar-lhe a humilhação de expor ainda mais a sua covardia. – Tive a desventura de gritar durante o sono, devido a um pesadelo aterrorizante. Sinto tê-lo perturbado.

– Maldito seja, Senhor Lockwood! Queria que o senhor estivesse na...[14] – começou o meu anfitrião, pondo a vela numa cadeira, porque achou que era impossível segurá-la com firmeza. – E quem o trouxe para este quarto? – continuou, cravando as unhas na palma da mão e rangendo os dentes para reprimir os tremores do maxilar. – Quem foi? Estou disposto a mandá-lo embora desta casa agora mesmo!

– Foi a sua empregada Zillah – repliquei, pulando da cama e vestindo-me rapidamente. – E nem me importaria se o fizesse, Sr. Heathcliff, porque ela bem que merece. Acho que queria uma outra prova, às minhas custas, de que o lugar é mal-assombrado. Bem, é mesmo... está fervilhando de fantasmas e duendes! O senhor está certo em trancá-lo, posso assegurar. Ninguém irá agradecer-lhe por um cochilo que seja nesse covil!

– O que quer dizer com isso? – perguntou Heathcliff. – E o que está fazendo? Deite-se e termine a noite por aqui mesmo, já que o senhor está aqui. Mas, pelo amor de Deus, não repita aquele barulho horrível! Não havia razão para isso, a menos que o estivessem degolando!

– Se aquele pequeno demônio houvesse entrado pela janela, com certeza me haveria estrangulado! – retruquei. – Não vou suportar as perseguições dos seus hospitaleiros ancestrais de novo. Não teria o Reverendo Jabes Branderham sido um parente seu por parte de mãe? E aquela leviana, Catherine Linton, ou Earnshaw, ou qualquer que fosse o seu nome... deve ter sido uma enjeitada[15]... alminha amaldiçoada! Disse-me que vem vagando pela Terra há vinte anos, certamente uma punição justa para as suas transgressões mortais.

Mal dissera essas palavras, lembrei-me da associação do nome de Heathcliff ao de Catherine no livro, fato que me fugira por completo da memória, até me despertarem daquela maneira. Enrubesci diante da minha inconveniência, mas sem mostrar-me consciente da ofensa, apressei-me em acrescentar:

– A verdade, senhor, é que eu passei a primeira parte da noite... – parei mais uma vez, pois estava prestes a dizer “folheando aqueles livros velhos”, o que revelaria o meu conhecimento do escrito, do impresso e dos assuntos. Então, corrigi-me e continuei, soletrando o nome rabiscado no parapeito da janela. – Uma ocupação monótona, com o objetivo de adormecer, como contar carneirinhos ou...

– O que está pensando, para falar assim comigo? – trovejou Heathcliff, com selvagem veemência. – Como... como o ousa, sob o meu teto?

Meu Deus! Só um louco falaria daquele jeito! E bateu na testa, enraivecido.

Não sabia se me indignava com aquela linguagem ou se prosseguia com a explicação, mas parecia tão alterado que me apiedei e prossegui no relato dos meus sonhos, afirmando que jamais ouvira o nome “Catherine Linton” antes, mas que de tanto lê-lo, uma impressão se havia produzido e personificado quando eu já não controlava a minha consciência. Conforme eu falava, Heathcliff se ia, aos poucos, ocultando no lugar em que estava a cama, até que se sentou, quase escondido atrás dela. Contudo, notei, pela respiração irregular e entrecortada, que se esforçava por vencer o excesso da violenta emoção. Não propenso a mostrar-lhe que percebera o seu conflito, continuei a vestir-me ainda mais ruidosamente, olhei para o relógio, e fiz um comentário sobre o tamanho da noite:

– Não são nem três horas! Poderia jurar que já eram seis. O tempo não passa aqui. Certamente nos recolhemos às oito!

– No inverno, sempre nos recolhemos às nove e nos levantamos às quatro – disse o meu anfitrião, sufocando um suspiro, e a mim me pareceu, pelo movimento da sombra do seu braço, que enxugava uma lágrima dos olhos. – Sr. Lockwood, – continuou – o senhor pode ir para o meu quarto. Só vai atrapalhar, se descer tão cedo. E, além do mais, o seu grito infantil mandou o meu sono para o inferno.

– E o meu também – retruquei. – Vou andar pelo pátio até amanhecer, então me vou embora. E o senhor não precisa temer outra intromissão minha. Agora estou de todo curado da mania de procurar prazer na sociedade, seja no campo ou na cidade. Um homem sensato deve encontrar em si mesmo companhia bastante.

– Excelente companhia! – resmungou Heathcliff. – Pegue a vela e vá para onde quiser. Vou ao seu encontro num minuto. Fique longe do pátio, os cães estão soltos. Quanto à sala, Juno monta sentinela lá, e... não, o senhor só poderá andar pelas escadas e passagens. Mas, saia daqui! Irei em dois minutos!

Obedeci, no que dizia respeito a sair do aposento. Mas, sem saber aonde as estreitas passagens levariam, permaneci no mesmo lugar, e fui testemunha involuntária do lado supersticioso do meu senhorio, o que contradizia, estranhamente, a sua aparente sensatez. Subiu na cama e escancarou a janela, desfazendo-se, nesse instante, numa incontrolável torrente de lágrimas.

– Entre! Entre! – soluçou. – Cathy, venha! Ah, venha somente uma vez! Ah, meu amor! Ouça-me pelo menos desta vez, Catherine!

O fantasma mostrou um capricho comum aos espectros: não deu sinal de vida. Mas a neve e o vento rodopiavam, com violência, pela janela, chegando mesmo até onde eu estava, e apagando a chama.

Havia tanta angústia no arroubo de aflição que acompanhava aquele delírio, que a compaixão me fez ignorar-lhe a insensatez, então, afastei-me, um tanto irritado por ter ouvido tudo, e com vergonha por lhe haver contado o meu ridículo pesadelo, uma vez que provocou aquela agonia. Entretanto, o porquê estava além da minha compreensão. Desci com cuidado para o andar térreo e cheguei aos fundos da cozinha, onde um resto de fogo, que fora varrido para um pequeno amontoado, me permitiu reacender a chama. Nada se mexia ali, exceto um gato cinza, malhado, que se arrastou do borralho e me cumprimentou com um miado tristonho.

Dois bancos, semicirculares, rodeavam quase por completo a lareira. Estiquei-me num deles e o Gato Cinza[16] subiu ao outro. Ambos cochilávamos, até que alguém invadiu o nosso refúgio. Era Joseph, arrastando os pés, enquanto descia por uma escada de madeira que desembocava num alçapão no teto, que supus ser um acesso ao quarto que ele ocupava no sótão. Lançou um olhar sinistro para a pequena chama, que eu atraíra para perto da grade com o intuito de brincar com as brasas por entre as traves de proteção, afugentou o gato e, honrando-se com o assento vago, iniciou a operação de encher com tabaco um cachimbo de três polegadas. A minha presença no seu santuário foi evidentemente tida por uma imprudência vergonhosa demais para ser observada: pôs, quieto, a boquilha nos lábios, cruzou os braços e começou a fumar. Deixei-o usufruir sem aborrecimentos e, depois que soltou a última baforada, deu um profundo suspiro, levantou-se e saiu com a mesma cerimônia com que entrara.

Em seguida, ouvi passos mais macios, então abri a boca para um “bom-dia”, mas voltei a fechá-la num cumprimento mal-sucedido, pois Hareton Earnshaw recitava as suas orações à meia-voz, numa série de imprecações contra os objetos em que esbarrava, enquanto vasculhava todos à procura de uma pá para cavar uma passagem pelo monte de neve. Olhou para atrás do banco, dilatando as narinas, e pensou tão vagamente em trocar cortesias comigo quanto o faria com o meu companheiro, o gato. Imaginei, por esses preparativos, que a saída já estava permitida e, deixando o meu duro assento, fiz menção de segui-lo. Ele percebeu e, forçando uma porta interna com a ponta da pá, sugeriu por um som inarticulado que aquele era o lugar por onde eu deveria ir, caso quisesse deslocar-me.

A porta dava para a sala, onde as mulheres já estavam a postos. Zillah atiçava milhares de fagulhas na chaminé com um fole colossal, enquanto a Sra. Heathcliff, ajoelhada à lareira, lia um livro com o auxílio das chamas. Mantinha a mão entre o calor do fogo e os olhos, e parecia absorvida nessa ocupação, parando somente para repreender a criada por cobri-la de faíscas ou afugentar um cachorro que, vez por outra, vinha esfregar-lhe o focinho no rosto. Fiquei surpreso em ver Heathcliff ali também. Estava em pé junto ao fogo, de costas para mim, terminando uma cena tempestuosa com a pobre Zillah que, de vez em quando, interrompia a sua atividade para puxar a ponta do avental e murmurar de indignação.

– E você, sua imprestável...! – explodiu, assim que entrei, voltando-se para a nora e empregando uma palavra tão inofensiva como “pata” ou “ovelha”, que se costuma representar por reticências.[17] – Aí está você, às voltas com os seus truques inúteis de novo! Os outros trabalham para ganhar o pão e você vive da minha caridade! Largue essa porcaria e encontre algo para fazer, pois tem que me pagar pelo aborrecimento de tê-la eternamente diante dos olhos. Está ouvindo, cadela maldita?

– Largarei essa porcaria, porque o senhor me forçará a isso se eu me recusar – respondeu a moça, fechando o livro, e atirando-o numa cadeira. – Mas só vou fazer o que eu quiser, mesmo que gaste a sua língua toda de tanto me xingar!

Heathcliff levantou a mão, e a sua interlocutora saltou para uma distância mais segura, sem dúvida alguma familiarizada com o seu peso. Não querendo assistir a um combate entre cães e gatos, detive-me mais adiante, como se estivesse ansioso por compartilhar do calor da lareira, de todo alheio à disputa interrompida. Cada um deles teve decoro bastante para suspender novas hostilidades. Para fugir à tentação, Heathcliff meteu os punhos cerrados nos bolsos, enquanto a Sra. Heathcliff enrugou os lábios e foi sentar-se mais longe, onde manteve a palavra de representar o papel de estátua durante a minha estada. Que não durou muito. Declinei de compartilhar do café da manhã, e, assim que raiou o dia, surgiu a oportunidade de escapar para o ar livre, agora claro, parado e frio, como gelo impalpável.

O meu senhorio mandou-me, aos gritos, parar, antes que eu chegasse ao fundo do jardim, e se ofereceu para acompanhar-me na travessia da charneca. Ainda bem que o fez, porque tudo o que ficava atrás da montanha se mesclava num oceano revolto, branco. As cristas e as calhas das ondas não encontravam correspondentes nas elevações e depressões do solo: no mínimo, muitos buracos estavam cheios até a borda, e montes de lixo pedregoso, refugo das pedreiras, ofuscavam a imagem que a caminhada do dia anterior me deixara na mente. Havia observado de um lado da estrada, a intervalos de cinco metros e meio ou seis, uma pilha de pedras, que continuava por toda a extensão do terreno inculto. Eram eretas e caiadas, com o objetivo de servir de guia no escuro e nas nevascas que, como era o caso, confundiam os profundos pântanos, que margeavam a estrada, com terra firme. Mas, exceto um ponto mais escuro aqui ou ali, todos os traços da sua existência haviam desaparecido, de maneira que o meu companheiro julgou necessário dizer-me, a todo momento, para ir para a direita ou para a esquerda, quando eu imaginava que estava seguindo corretamente a sinuosidade da estrada. Conversamos pouco, e ele parou na entrada do Parque da Cruz do Tordo, dizendo que dali para frente eu não poderia errar. As nossas despedidas limitaram-se a uma rápida inclinação de cabeça, e então, segui adiante por conta própria, visto que a cabana do porteiro ainda está desocupada. A distância do portão até a Granja é de pouco mais de três quilômetros, e acredito que os transformei em mais de seis, perdendo-me entre as árvores, afundando até o pescoço na neve, um apuro que só aqueles que o experimentaram podem avaliar. Em todo o caso, quaisquer que tenham sido as minhas andanças, o relógio soava meio-dia quando entrei em casa. E isso correspondeu exatamente a uma hora para cada quilômetro e meio do caminho usual para o Morro dos Ventos Uivantes.

A minha governanta e os seus subordinados se apressaram em me acolher, exclamando, num tumultuo, que já me haviam dado por perdido. Todos acharam que eu morrera na noite anterior, e estavam imaginando por onde começariam a procurar o corpo. Mandei-os calar, agora que viam que eu retornara, e, enregelado até o fundo da alma, arrastei-me para cima, de onde, depois de vestir roupas secas e caminhar para a frente e para trás por uns trinta ou quarenta minutos, visando restaurar o calor do corpo, fui para o escritório, fraco como um gatinho, quase a ponto de não poder apreciar o agradável fogo e o café fumegante que a criada preparara para me revigorar.





[1] Gênesis, 15:12.
[2] Wuthering vem do verbo to wuther que significa, entre outros, movimentar com rapidez e força, produzindo um uivo semelhante ao vento. O termo aparece também em Villete, de Charlotte Brontë. Embora Wuthering Heights seja, no Brasil, tradicionalmente traduzido por O Morro dos Ventos Uivantes (um lindo título, diga-se de passagem), na verdade não está muito de acordo com o original. Mais adequados seriam, por exemplo: Cimos Tempestuosos – como numa versão italiana consultada –, O Monte dos Vendavais ou O Alto dos Vendavais – como as traduções portuguesas –, ou até mesmo O Morro (Os Cimos/Os Altos) dos Ventos Tempestuosos (“heights” é mais bem traduzido por “cimos” ou “altos”).
[3] O guarda-roupas com cabides foi adotado na Inglaterra no começo dos anos 1820: antes disso, guardavam-se as roupas dobradas em armários com prateleiras. Já as camas fechadas estavam definitivamente fora de moda em 1801.
[4] Catherine, do grego Katharós, “puro”; cujas raízes vêm de Hécate, nome que corresponde a duas divindades diferentes. A Hécate simples, pura, é uma deusa lunar, muitas vezes associada a Ártemis; já a outra é a Hécate tríplice, divindade infernal e maléfica, geralmente identificada com Prosérpina. Preside às mágicas, aos feitiços e aos encantamentos e está ligada ao mundo das Sombras. Aparece aos feiticeiros com uma tocha em cada mão, e ainda na forma de animais, como jumenta, cadela, loba, etc. Como feiticeira e mágica, Hécate preside às encruzilhadas e costuma ser representada como uma mulher de três cabeças ou três corpos.
[5] Sabbath, no original. Designa o sábado, dia de culto religioso e descanso para judeus e algumas confissões cristãs protestantes. Por analogia, significa o domingo, que os cristãos – católicos ou protestantes – guardam tão rigorosamente quanto os judeus o fazem com o sábado.
[6] Mateus 18: 21-22: “Então Pedro, chegando-se a ele, perguntou-lhe: ‘Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu-lhe: ‘Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes.’” (Traduz-se também: “até setenta vezes sete”).
[7] Isto é: o primeiro pecado da septuagésima-primeira série de sete, ou o quadringentésimo-nonagésimo-primeiro pecado, o que viria depois dos quatrocentos e noventa pecados que um cristão deve perdoar.
[8] Essa personagem alude ao pregador britânico Jabez Bunting (1779-1858), cujos célebres sermões e veemente rigor lhe valeram a qualificação de segundo fundador do metodismo (movimento religioso cristão, de princípios muito rígidos, que se processou dentro da Igreja anglicana no século XVIII, liderado pelo teólogo inglês John Wesley – 1703-1791. Os seus adeptos criaram a Igreja metodista, que é protestante e evangélica, tendo a sua teologia a Bíblia como regra da fé e da prática).
[9] Lucas 12: 10: “E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado; mas ao que houver blasfemado contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado.”
[10] Jó 7:10: “Não voltará para a sua casa, sua morada não tornará a vê-lo.”
[11] 2 Samuel 12: 7: “Natã disse a David: ‘Esse homem és tu!’ ”
[12] Salmos 149: 8-9: “para prender seus reis com algemas e seus nobres com grilhões de ferro: cumprir neles a sentença prescrita.”
[13] Gênesis 16:12: “Ele será um potro de homem, sua mão contra todos, a mão de todos contra ele.”
[14] Aqui, Emily faz raro uso de uma prática muito comum na época, que Charlotte Brontë cita no Prefácio à Reedição de 1850: “(...) um grande número de leitores se impressionará por encontrar nestas páginas, impressas com todas as letras, palavras que não é uso corrente se apresentarem a não ser pela letra inicial e pela final – com inexpressivas reticências para preencher o intervalo.” (Ver texto completo no Dossiê).
[15] Changeling, no original. Palavra que designa tanto uma criança secretamente substituída por outra no começo da vida, quanto uma criança, em geral estúpida ou feia, que julgam haver sido deixada pelas fadas no lugar de uma outra roubada.
[16] Grimalkin, no original. Alusão ao Graymalkin shakesperiano, presente em Macbeth I, 1: “1.a Feiticeira: ‘Onde poderemos encontrarmo-nos?’ 2.a Feiticeira: ‘Na charneca.’ 3.a Feiticeira: ‘Lá nos encontraremos com Macbeth.’ 1.a Feiticeira: ‘Já vou, Gato Cinza.’” E IV, 1: “1.a Feiticeira: ‘Três vezes miou o Gato Cinza.’” Na peça, é Hécate quem preside aos feitiços, o que se evidencia nesse mesmo ato IV, cena 1: “Oh! está muito bem! Aprovo vosso trabalho que receberá recompensa nos lucros. Cantai agora, ao redor do caldeirão, fazendo roda como os elfos e as fadas, encantando tudo quanto aí dentro colocardes.” E no ato precedente, a cena 5 começa assim: “Em plena tempestade, as três feiticeiras se encontram com Hécate, a criadora dos feitiços.” Gatos e sapos eram as formas animais quase sempre usadas pelos demônios familiares das feiticeiras.
[17] Segundo nota de Jean-Pierre Richard à sua tradução da obra, a palavra, no caso, seria ass, que significa “asno”/ “burro”/ “jumento”, no sentido próprio e no figurado, bem como “nádegas”/ “traseiro” – nesse último sentido, pode ser uma alusão ao fato de ela não fazer nada e estar sempre sentada. Quanto às reticências, ver nota 12.