terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

UMA JANELA PARA O AMOR




UMA JANELA PARA O AMOR

Grã-Bretanha, 1985
Direção: James Ivory
Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala (baseado no livro de E.M. Foster “A Room with a view”)
Com: Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Denholm Elliott, Julian Sands, Simon Callow, Patrick Godfrey, Judi Dench, Fabia Drake, Joan Henley, Amanda Walker, Daniel Day-Lewis, Maria Britneva, Rosemary Leach, Rupert Graves, Peter Cellier.
Fotografia: Tony Pierce-Roberts
Título Original: A Room With a View
Comédia romântica/Filme de Época




No último ano do século XIX, Lucy, uma jovem inglesa, e o seu "chaperon", Charlotte, viajam pela Itália. No hotel onde se hospedam em Florença, conhecem outros hóspedes, entre eles os Emerson, pai e filho. George Emerson recebeu do pai uma educação liberal e não faz cerimônia em roubar um beijo a Lucy, mal a apanha a sós.



Charlotte, que aparece nesse instante, fica tão escandalizada e atribui ao incidente tamanha gravidade que parte precipitadamente com Lucy para Inglaterra. Algum tempo depois e já em Inglaterra, George vai viver com a família numa pequena cidade nos arredores de Londres, onde encontra Lucy. Esta, entretanto, ficara noiva de Cecil, um jovem abastado e presunçoso, completamente o oposto de George. E quando este surge novamente e tenta conquistar Lucy, ela, embora comece por repudiá-lo, logo rompe o noivado com Cecil e se casa com ele.

A lua de mel é passada em Florença, no mesmo hotel em que haviam travado conhecimento.



O filme trata da história de uma jovem que vai a Florença com o seu "chaperon" e lá ambas se desencantam com o quarto que lhes é dado no hotel, pois não tem vista para o Arno. Então, conhecem um inglês e o seu filho que lhes propõem trocar o seu quarto pelo delas. A partir disso, desenvolve-se uma relação entre o rapaz excêntrico e a moça. Quando volta a Londres, ela tem que decidir se desposa aquele que já era seu noivo antes da viagem à Florença, e que representa os bons modos e as tradições britânicas (ou seja, um perfeito dândi) do último ano do século XIX ou se deixa o seu coração falar mais alto e escolhe o rapaz excêntrico. É claro que a pressão social é forte para que ela ouça a voz da razão e não a do coração. Mas como já dizia Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

O ritmo do filme é lento, mas se adapta muito bem ao mundo esnobe que é descrito na película: o da burguesia inglesa (os que assistiram a “Titanic” encontrarão em “Uma Janela para o Amor” a mesma atmosfera). O figurino, os cenários e os lugares da filmagem foram escolhidos com muito cuidado e são um regalo aos olhos.

Os atores são ótimos. Destaque para as performances de Helena Bonham Carter, que representa uma perfeita senhorita inglesa, e Julian Sands, que atua como um excêntrico. Cumpre também ressaltar o desempenho de Judi Dench, Denholm Elliott, Daniel Day-Lewis, um perfeito dândi, bem como o de Maggie Smith e o de Denholm Elliott, que valeram a ambos uma nomeação para os Óscares da Academia de Hollywood.

O roteiro é interessantíssimo, pois se baseia no romance de E.M. Foster “A Room with a View”, e suscita interesse do começo ao fim. Sem dúvida alguma, trata-se de um excelente filme.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

VER UM AMIGO CHORAR, CANÇÃO DE JACQUES BREL





VER UM AMIGO CHORAR

Jacques Brel


Com certeza, existem as guerras da Irlanda
e também povos sem música...


Com certeza, com toda essa falta de carinho,

não há mais futuro...



Com certeza, o dinheiro não tem cheiro

mas essa falta de odor sobe à cabeça


Com certeza, pisamos sobre as flores...
Porém ver um amigo chorar...


Com certeza, existem as nossas derrotas

e depois a morte, que está ao final...



Nossos corpos já inclinam a cabeça,

espantados com o que vêem com ela em pé



Com certeza, há mulheres infiéis

e  pássaros assassinados



Com certeza, nossos corações perdem suas asas...
Porém ver um amigo chorar...


Com certeza, as cidades se esgotaram

por culpa destas crianças de cinqüenta anos...



Nossa impotência as ajuda,

assim como nossos amores sofridos...



Com certeza, é o tempo que anda rápido demais,

como estes metrôs cheios de apressados



É a verdade que nos evita...
Porém ver um amigo chorar...



Com certeza, nossos espelhos estão intactos...

assim como a coragem de ser judeu...

e a elegância de ser negro...



Nós acreditamos ser cúmplices... não passamos de rebanhos...


E todos estes homens são nossos irmãos?


Com certeza, estamos somente assombrados

pelo amor que nos dilacera...

Porém ver um amigo chorar...



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

FANNY E ALEXANDRE




FANNY E ALEXANDRE

Suécia, França, Ex-República Federal Alemã ,1982
Direção: Ingmar Bergman (1918-2007)
Roteiro: Ingmar Bergman
Com: Bertil Guve (Alexandre) e Pernilla Allawin (Fanny) nos papéis principais
Título Original: Fanny och Alexander
Drama

Tudo pode acontecer, tudo é plausível e provável. O espaço e o tempo não existem. Tendo um frágil pano de fundo de realidade, a imaginação cresce e cria novas cenas.

Ingmar Bergman



Já nas primeiras seqüências de Fanny e Alexandre, Ingmar Bergman define a sua posição e mostra abertamente quais são as suas intenções: no começo do filme aparece um menino contemplando um teatro de marionetes. Um por um desmonta todos os elementos do cenário. De forma similar, o garoto irá penetrando na fachada e desmascarando o mundo dos adultos. A perspectiva desse filme é, sobretudo, a desse menino de dez anos, e o drama se dá a todo instante sob o atento olhar do jovem alter ego de Bergman. Alexandre e sua irmã de oito anos, Fanny, são os membros mais novos dos Ekdahl, uma família que dirige um teatro numa adormecida cidade sueca no começo do século XX. A avó é quem dita as normas do clã com sabedoria e paciência. A vida dos Ekdahl transcorre cheia de surpresas, e oferece a Alexandre constante inspiração para novos e fantásticos jogos. O menino sonha em fazer uma brilhante carreira no teatro, como a sua avó e a sua mãe, mas a morte do pai mudará os seus planos. No ano em que morre o marido, Emilie, a jovem viúva, se casa com o bispo Edvard Vergenus. Em nome do amor e da respeitabilidade, renuncia à carreira de atriz e se muda com os filhos para a residência do bispo. Na atmosfera restrita (e hipócrita) do seu novo lar, as crianças vivem intimidadas e atormentadas. Alexandre, porém, é um rebelde. Na hora de benzer a refeição à mesa, recita indecências pouco cristãs e com sua astúcia cruel e infantil consegue com freqüência enervar o padrasto. Este o surra, sem misericórdia, e, em vez do amor de Deus, Alexandre passa a conhecer mais a fundo o amor do demônio e os métodos da Inquisição. O lar se transforma para a mãe e os filhos num inferno puritano e a todos eles parece um milagre quando, por fim, conseguem escapar dali. O filme Fanny e Alexandre é um tecido de imagens barrocas e de grande dramaticidade, em que Bergman elabora a matéria-prima bruta da sua própria infância. A história dos Ekdahl trata da necessidade do teatro, ou seja, da imaginação na vida humana. O próprio Bergman era filho de um pastor e, talvez por isso, o filme não deixe dúvidas sobre a opinião do diretor acerca da atitude de alguns clérigos santarrões para quem o amor e o temor a Deus não são mais do que instrumentos de poder que eles usam com vistas a dominar e tiranizar a sua família. Oscar Ekdahl, o pai de Fanny e Alexandre, morre de um infarto fulminante durante um ensaio de Hamlet, no qual interpretava o papel do fantasma. Por isso, sempre acudiu o filho Alexandre, que se sente um pouco como a personagem de Shakespeare. Bergman complementa, assim, de forma fluida, a sua realista história familiar com outra de caráter sobrenatural. Além disso, o diretor se esforça por contrastar o dionisíaco amor pela vida que se respira na casa dos Ekdahl com a opressiva disciplina da residência episcopal e tenta explorar o inevitável conflito entre fantasia e razão. Para Bergman, Fanny e Alexandre supõe uma espécie de balanço da sua vida e obra. Embora nos últimos 25 anos o prestigioso artista sueco tenha dirigido inúmeros trabalhos para o teatro e para a televisão, esse é, até hoje, o seu grande longa metragem para o cinema. Fanny e Alexandre foi, além disso, o primeiro filme estrangeiro que obteve quatro Óscares.



A LANTERNA MÁGICA


Alexandre não só possui um teatro de marionetes, mas também uma lanterna mágica, em clara homenagem de Bergman à sétima arte. O primeiro passo para o cinema contemporâneo foi dado no século XVII por Athanasius Kircher, um jesuíta austríaco que inventou a chamada lanterna mágica. O instrumento funcionava com velas e conseguia projetar imagens na parede. Consistia numa caixa iluminada diante da qual se punham pequenas imagens pintadas sobre cristal. Quando estas giravam frente à luz, esse aparato de todo mecânico criava a ilusão de reproduzir o movimento de, por exemplo, trenós ou moinhos de vento. Em 1820, a invenção da luz de cálcio deu grande peso para a invenção do cinema. As novas possibilidades de iluminação permitiram a divulgação da lanterna mágica e das suas “fantasmagorias”. Enfim, se havia tornado possível a representação de movimentos e efeitos surpreendentes, e se podiam reproduzir de forma convincente a chuva, a neve, o fogo e as ondas do mar.




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A CASA DO LAGO


A CASA DO LAGO


Estados Unidos, 2006
Direção: Alejandro Agresti
Roteiro: David Auburn, Eun-Jeong Kim (diretor do filme sul-coreano “Siworae”)
Com: Keanu Reeves, Sandra Bullock, Christopher Plummer, Ebon Moss-Bachrach, Dylan Walsh, Shohreb Aghdashloo
Título Original: The Lake House
Drama, Romance

CURTA

Kate Forster (Sandra Bullock) é uma médica solitária que mora numa casa à beira de um lago. Ela passa a trocar cartas de amor com o novo morador da residência, o arquiteto Alex (Keanu Reeves). No entanto, ambos percebem que existe um lapso de tempo que atrapalha o "relacionamento" entre os dois. Percebendo a aura de mistério em torno da troca de cartas, eles tentam driblar esse problema para que, finalmente, chegue a hora certa para que se amem. Remake de um filme sul-coreano chamado “Siworae”, A Casa do Lago marca o reencontro de Sandra Bullock e Keanu Reeves no cinema, exatos doze anos depois de terem lançado o mega-sucesso “Velocidade Máxima”, em 1994. E é bom dizer que esse novo trabalho dos dois é um grande filme, daqueles romances sérios de fazer chorar que são feitos poucas vezes com qualidade em Hollywood. Não é o tipo de comédia romântica que quase toda semana chega aos cinemas, mas sim o romance na sua forma bruta e clássica, para ir com um acompanhante, comprar um saco de pipocas na entrada e, claro, não esquecer o lenço de bolso. Bullock é Kate Foster, uma médica recém-formada que se muda para a cidade grande para trabalhar em um hospital, depois de passar alguns anos morando numa casa do lago. Reeves é Alex Wyler, um arquiteto de talento que tem problemas com o pai e é o novo morador da casa. Através de cartas deixadas na caixa de correio do local, os dois se conhecem e passam a manter um contato, até que rola um interesse mútuo, que não poderá ir à frente por um simples detalhe: ele vive no ano de 2004, enquanto ela está em 2006. Preciso no modo de apresentar a distância espaço-temporal entre os dois, sem nunca deixar que a situação pareça ridícula ou inverossímil, o diretor Alejandro Agresti faz, no seu primeiro filme em língua inglesa, um trabalho preciso e tocante: não se limitando a ser apenas uma historinha de amor entre os dois, o filme aproveita para discutir, através do ótimo roteiro de David Auburn, coisas do dia-a-dia de qualquer pessoa. Entregando-se de forma sutil aos clichês do gênero, o filme tem o seu diferencial: ao contrário dos famosos romances impossíveis, Kate e Alex podem ficar juntos, desde que um deles saiba como superar essa distância temporal de dois anos que os separam. Isso é interessante pelo simples fato de que passamos a torcer pelos dois, mesmo sabendo que tais coisas simples do dia-a-dia podem impedir que esse encontro, marcado dois anos antes, aconteça. É um filme feito para chorar mesmo, mas que tem a coragem de ser um pouco menos convencional na sua estética, ao apresentar a história sem achar que o público é tolo e que tem toda a estrutura clássica de tragédia, ousando ser distinto e eficiente na conclusão. Bullock, mesmo nos seus quarenta e poucos anos, continua bonita (haja Botox!) e convence fazendo uma personagem alguns anos mais nova, e até a fala presa de Reeves está menos gritante aqui, algo que vem melhorando a cada filme do ator, que parece soltar-se cada vez mais. O elenco ainda conta com Christopher Plummer sem papel que lhe dê muito destaque, mas a sua presença de tela é um fator fortíssimo para dar mais sentido artístico da obra, já que ele dá um show no pouco tempo que tem e arrebenta como o pai amargurado de Alex. Há cenas feitas para chorar mesmo, extremamente bem filmadas (linda fotografia de Alar Kivilo), enfim, um romance para se ver a dois e que tem totais condições de marcar presença na História do Cinema não só pela falta de concorrência do gênero, que lança um bom filme a cada longos anos, mas também pelos seus méritos discutidos acima, o que o faz ter forças próprias para uma bela sessão de bom cinema romântico. Mão há quem não se encante com essa deliciosa história que se passa num instante e se não se preocupar com a noção de tempo, que no filme não é retilíneo, mas simultâneo, ou seja, todas as coisas do mundo, de qualquer época ocorrem simultaneamente. Esse é o questionamento maior, filosófico, do filme, que poucos podem alcançar. Mas isso pouco importa, porque o filme émaravilhoso, como um grande romance obrigatoriamente deve ser.



ISSO JAMAIS ACONTECEU ANTES

Paul McCartney

Eu tenho certeza
De que isso jamais me aconteceu antes
Conheci você e agora tenho certeza
De que isso jamais aconteceu antes

Agora vejo
Que esse é o caminho que eu supunha ser
Conheci você e agora vejo
Que esse é o caminho que deveria ser

Então, venha comigo
Agora podemos ser o que queremos ser
Esse é o caminho que deveria ser

Esse é o caminho que deveria ser
Esse é o caminho que deveria ser dos amantes
Eles não o deveriam percorrer sozinhos
Não é bom quando se está sozinho
TRADUÇÃO DE RENATA CORDEIRO